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O derrame como desculpa

Depois que escrevi uma coluna sobre problemas de sono (“Queria poder almoçar”), muita gente me escreveu contando suas histórias. Uma amiga, publicitária, afirma que chegou a passar 51 horas acordada, e ainda assim ouvia os outros dizerem: “Apague a luz e fique quietinha, duvido que você não consiga dormir”, ou “Acorde cedo e faça atividades o dia todo, à noite com certeza o sono vem”. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 18h43

Outra amiga, professora, disse que passou três dias em claro e teve de ser medicada no hospital. Uma jornalista admitiu que não sabe como ainda não perdeu o emprego, e outro, advogado, disse que adotou um interessante sistema de dois turnos: ele dorme umas seis horas seguidas, levanta lá pelas seis da manhã, toma banho e café, lê um pouco ou assiste a um episódio de série de tevê. Às oito, volta a dormir por mais umas três ou quatro horas.

Pouca gente apareceu com o diagnóstico pronto, tipo: “Isso é encosto / falta de espiritualidade” ou “Faz aí uma meditação”. O que é bom, porque indica que talvez exista uma disposição maior em compreender o diferente, ou pelo menos entender que, seja lá qual for a solução mágica que você tenha a oferecer, ele provavelmente já tentou aquilo. Oito vezes. 

E nem é preciso ter distúrbios incomuns de sono para ser alvo da falta de empatia dos outros, que pode chegar a níveis inacreditáveis. Na revista Superinteressante de dezembro do ano passado, há o relato de uma moça que sofreu um derrame (“O dia em que meu cérebro apagou”). Lá pelas tantas, lê-se este trecho: “No dia 30 de janeiro (um mês após o derrame), abandonei o mestrado em Letras. Encontrei uma colega no campus, contei o que tinha acontecido. Eu não conseguia ler mais do que um parágrafo. ‘Vou tirar uma licença’, disse. ‘Queria eu ter um derrame como desculpa para os meus problemas de memória’, ela respondeu.”

Houve tempos em que até pacientes com câncer eram culpados pela própria doença, que, segundo a sabedoria popular, acometeria pessoas depressivas ou que guardavam rancor. (Lembro de uma amiga dizendo que a tia “pegou câncer porque era uma pessoa ruim”.) Da mesma forma, considerava-se que a fé e a força de vontade eram os principais fatores que levavam à cura, o que não seria uma afirmação assim tão desastrosa, caso não implicasse no fato de que os pacientes terminais não teriam acreditado o suficiente na própria reabilitação. Ou seja: culpa sua. De novo. 

Conheço um sujeito que adorava ver alguém gripado – ele se aproximava do infeliz e dizia que a razão era o sedentarismo, pois ele corria todos os dias e nunca mais pegara um só resfriado. 

Culpar a vítima é provavelmente um mecanismo utilizado para manter a ilusão de que coisas ruins nunca vão acontecer com você, que, afinal, é uma pessoa otimista, não guarda rancor, acorda cedo, corre todos os dias, tem bons hábitos, acredita num Ser Supremo, não usa vestido curto. E principalmente: evita sair por aí tendo derrames. 

 

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