Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

O delírio carioca de Guinga

Compositor e violonista, que gravará disco com o Quinteto Villa-Lobos, se apresenta hoje e amanhã com Leila Pinheiro e Mônica Salmaso em São Paulo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Carlos Althier de Souza Lemos Escobar mora há 30 anos na mesma rua de João Gilberto. Nessas três décadas, ele viu o mito apenas uma vez. Era 1h da madrugada de um domingo para uma segunda-feira, chovia torrencialmente e não se via uma alma, apenas João atravessando a Carlos Góis coberto por um longo capote. Por coincidência daqueles arranjos cósmicos operados pelos deuses da música, ele e o papa da bossa também fazem aniversário no mesmo dia, 10 de junho.

Conhecido como o violonista e compositor Guinga - apelido que Carlos ganhou de uma tia que o chamava de "gringo" quando era pequeno, por ter a pela mais branca do que a de seus familiares -, ele completou este ano seis décadas de vida, sendo mais de 30 anos só de carreira. E não é exagero dizer que a função que João Gilberto exerceu no fim dos anos 1950, como grande revolucionário da música brasileira, hoje cabe a Guinga.

 

 

 

 

 

Vídeo videoGuinga ensina uma técnica rara: como usar o polegar para fazer solos e acordes

 

 

 

Sentado no sofá de seu apartamento, ainda abatido e se recuperando de uma gripe suína, interrompe a fala por diversas vezes com uma tosse seca. Incensado por músicos estrangeiros da envergadura de Michel Legrand, Paco de Lucia, Toots Thielemans, e dos brasileiros Chico Buarque, Hermeto Pascoal e Sergio Mendes, como o herdeiro legítimo que joga seu tempero no balaio de Villa-Lobos, Pixinguinha, Debussy , Ravel, Gershwin e Cole Porter, Guinga tem noção da qualidade espontânea de sua música, mas é dos poucos que ainda preferem a humildade à soberba. O comportamento comprova o seu discurso, e uma das palavras a que ele mais tem ojeriza é cabotinismo. "A pior coisa que existe é o sujeito ficar se promovendo. O Leonard Bernstein veio ao Brasil para conhecer o Guerra Peixe, que não contou a ninguém na época. É preferível morrer desconhecido do que ficar falando de si", comenta o compositor, cujo reconhecimento tem aumentado no Brasil, mas ainda está longe de garantir o sustento do músico, como ocorre na Europa e nos EUA.        

Guinga sempre batalhou para sobreviver. O extenso nome de batismo tem pompa de aristocrático, mas ele já passou fome duas vezes na vida, nasceu em Madureira em uma família pobre e foi criado no subúrbio, em Vila Valqueire, na divisa com Jacarepaguá. O instrumento da casa era o violão, ensinado pelo tio Marco Aurélio. Essa informalidade das aulas fez Guinga se embeber na vivência e na entrega sincera com músicos rua afora, fator que o tornaria criativo e sempre guiado pela intuição.

A música sempre teve de dividir espaço na vida de Guinga com outras coisas. Algumas delas subjetivas, como a depressão com a qual ele convive desde os 16 anos. Hoje, o vascaíno e boleiro leva numa boa, mas toma medicamentos em períodos de crise. No plano objetivo, a dubiedade apareceu desde cedo em relação a escolhas profissionais.

Em 1977, Guinga se formou em odontologia e até o início dos anos 2000 conciliou os ofícios de músico e dentista. "Eu sabia que nunca ia ficar rico e decidi optar pelo que me dá prazer, a música. Foi ela, por exemplo, que me salvou na juventude de coisas que não eram nada boas. É preferível o cara fazer música, mesmo que seja ruim, do que ir para o crime... Se bem que tem muito cara aí que era melhor estar na criminalidade do que fazendo música", brinca.

Nessa de atacar em duas profissões, ele lembra de quando conheceu Elis Regina, que, em 1978, gravou Bolero de Satã, parceria de Guinga e Aldir Blanc. "Cheguei no apartamento de um amigo, sabendo que a Elis estava lá, fui direto do consultório, com minha maletinha. Ela perguntou se eu era médico como o Aldir. Mostrei a música e ela gravou."

Ganhando cancha, mas também ensinando, passou a acompanhar artistas como João Nogueira, Elizeth Cardoso, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Cartola (é de Guinga o violão que se ouve na gravação antológica de O Mundo é um Moinho), entre outros. O primeiro disco autoral, Simples e Absurdo, seria lançado só em 1991, com onze temas assinados com Aldir. Além da parceria com este que é um dos maiores letristas do País - Catavento e Girassol, Sete Estrelas, Canibaile, Baião de Lacan, Yes, Zé Manés e Tudo Fora de Lugar -, Guinga divide o grosso de sua obra com outro craque, Paulo César Pinheiro, de quem anda afastado, mas com quem assina composições como Senhorinha e Saci .

Além deles, em dez discos de carreira, sendo dois instrumentais, lançados apenas no exterior - Graffiando Vento e Dialetto Carioca -, Guinga dividiu composições com outros fora-de-série, como Chico Buarque (Você, Você), Mauro Aguiar (Concubinato e Casa de Villa), Edu Kneip (Via Crucis e Mar de Maracanã), e os mais jovens Thiago Ahmud (Contenda) e Francisco Bosco (Noturno Copacabana).

Todos os parceiros citados têm de ser feras mesmo para conseguirem letrar os tortos e imprevisíveis temas de um compositor que, como poucos, consegue criar melodias e harmonias que pendulam natural e frequentemente entre erudito e popular. Uma obra composta por baiões, choros, valsas, tangos, frevos, sambas e mais uma infinidade de gêneros, com a cara do Brasil, sem ser piegas ou nacionalista, aberta sempre à influência do veneno do jazz americano e do perfume do erudito europeu.

Há tempos é no exterior que Guinga busca o seu sustento, com concertos e workshops. Exemplo de que aqui ainda é um "músico dos músicos", sendo venerado no métier artístico e pouco conhecido do público em geral. Mesmo com todo o respeito devotado à sua obra lá fora (como na apresentação de 2006, no Disney Hall, ao lado de Paulo Sérgio Santos, Lula Galvão e Jessé Sadoc, em que a Filarmônica de Los Angeles fez um concerto inteiro com a obra de Guinga), ele não consegue se desenlaçar do Rio de Janeiro. "Sou um homem habitado pela saudade", completa o compositor com os olhos rasos d"água por não conseguir se ausentar de sua terra natal, mas, principalmente, de todas as pessoas que ele ama.

SEIS NOTAS

Hamilton de Holanda

Bandolinista

"O Guinga é da mesma linhagem de Pixinguinha, Villa-Lobos, Tom Jobim. Ele consegue

traduzir em música o que fala a nossa alma. Um compositor simples e complexo, mas

sempre profundo."

Aldir Blanc

Letrista

"Em 1988, escrevi um artigo dizendo que o Guinga era um dos maiores compositores do mundo, herdeiro direto do Villa-Lobos. Hoje, 22 anos depois, a mídia reconhece que ele é um gênio. Ele merece esse crédito."

Marcus Tardelli

Violonista

"A música do Guinga é altamente moderna, aponta para o futuro. Consegue ser profunda e original, passando por todos os estilos, causando um impacto psicológico muito forte em quem a escuta."

Nei Lopes

Letrista

"Criar letras para melodias do Guinga foi antes de tudo um desafio. Principalmente pela complexidade das melodias, aparentemente simples, e pelo nível de exigência dele, que é sem dúvida um compositor erudito."

Sergio

Mendes Pianista

"Conheci Guinga em 1991, quando gravei suas lindas canções Esconjuros e Chorado. Depois disso, gravei várias outras. Além de ser um querido amigo, eu considero Guinga um dos maiores compositores da MPB."

Ed Motta

Compositor

"O Guinga é um cara agraciado pelo talento. A música dele é brasileira sem ser brasilianista, xenófoba e preconceituosa. Tem um compromisso com o Brasil, mas é inteligente e aberta ao jazz e à escola clássica europeia"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.