O delirante carnaval da democracia

Todo ano minha coluna sai na terça-feira de carnaval. Não há outro assunto que possa suplantar a espantosa festa popular. Eu andava irritado com a folia anual. Cheguei a dizer que o chamado "tríduo momesco" - como falavam os cronistas d"antanho - tinha virado uma calamidade pública. Mas, nos últimos dias, vendo as massas pulando nas ruas de Salvador, Recife e Rio, fiquei pensando: como é que pode? O que faz milhares de foliões se jogarem nas ruas como estouros de boiadas, o que será que provoca tanta fome de samba, de riso, de porres, de sexo em flor? Este ano, há blocos que congregam mais de 400 mil participantes, 400 mil dançando na orla do Rio, em um delirante comício de felicidade.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2011 | 00h00

Olhei de perto um infinito rio de gente pulando na beira-mar, até sem ouvir mais a música que guiava os foliões, como uma locomotiva sonora. Houve uma mudança, sem dúvida.

Lembro-me do tempo recente em que todos reclamavam do "fim do carnaval", reduzido às alegorias luxuosas das escolas sob um elegante desprezo das elites. Lembro das primeiras damas da ditadura rebolando no camarote, d. Yolanda Costa e Silva ou d. Dulce Figueiredo, enquanto o carnaval de rua no Rio minguava, com mascarados solitários e escassos bloquinhos na avenida, restando apenas os "clóvis" de Santa Cruz com a tradição do passado. O carnaval oficial tinha virado um produto de mercado, um merchandising de bicheiros, uma festa para "voyeurs", para turistas, inclusive para brasileiros - turistas de si mesmos.

Mesmo depois da ditadura, seria impossível ver esses imensos rios que passam em nossas vidas. Era impossível a alegria popular com 2.000% de inflação ao ano, na década de 80. Creio mesmo que essa enchente de povo se forma a partir da estabilização da economia em 94 e da maré em nossa direção, com o capital internacional dirigido aos países emergentes. Aos poucos, o País retomou sua autoestima e, especialmente no Rio, ela cresce nos últimos tempos, com o melhor controle da criminalidade e com o fim dos governos sórdidos que jogaram a cidade no buraco.

Subitamente, como as multidões árabes que tomaram as praças da África do Norte, nossas massas encheram a cidade. Sem comparações esquemáticas, sente-se o renascimento de um desejo gregário, até de contato físico entre as pessoas, uma explosão de liberdade e de encontro que nos leva a concluir que houve uma democratização da convivência, um irresistível desejo de existir em comunidade.

Há mesmo um secreto desejo de viver e morrer numa fervente multidão- formigueiro, onde todos virem um grande "um". Creio também que isso reflete o movimento atual da vida social que se organiza cada vez mais em redes, sim, pois os métodos de comunicação pela internet como Facebook ou Twitter não apontam mais, como pensávamos, para um futuro, para um ponto de chegada. Não. Agora a vida social tem uma dinâmica interna, intramuros, congregadora e não apontando para um futuro feliz ou infeliz. Não mais utopias e nem mesmo distopias, que são finalismos ao avesso. Não. Agora o movimento é no presente, é centrípeto, cerrando contatos e intimidades. Ouso dizer que os blocos e as multidões do carnaval de hoje têm o desenho de um "Facebook" de carne viva.

Não me esqueço do desfile premonitório que o genial Joãosinho Trinta fez com urubus, ratos e mendigos em 1988, anunciando que o luxo que ele tinha criado com sua frase luminosa ("o povo quer é luxo; quem gosta de miséria é intelectual...") poderia virar um lixo crítico, uma denúncia ao êxtase fácil e alienante. Ali estava um prenúncio do carnaval que agora se derrama, fluvial, pelo País.

Assim como o Círio de Nazaré congrega milhares pela esperança e fé, como um martírio triunfal, assim como o futebol congrega torcidas pela vitória de uma camisa, o carnaval de hoje me parece a consequência da democracia e do crescimento econômico do País. Enquanto as elites deprimem em casa, vão a um camarote de cervejaria ou fogem para a serra ou mar, milhares de bailarinos ululantes tomam a cidade como numa revolução.

Somos um povo esquisito, todo nu, pulando como malucos para espanto risonho do mundo "civilizado".

Muito bem. Pois, acho o carnaval nossa marca e nossa grandeza. Como pode o mundo achar o carnaval uma loucura, este mundo irracional de Kadafis e "tea parties", de bombas "clean" contra bombas sujas? Émelhor entender o Brasil através do carnaval do que ver o carnaval como um desvio da razão. O carnaval nos vê. Sua razão sacana nos ensina mais que estas "moralidades críticas".

O carnaval mostra que o Brasil tem outra forma de "seriedade", mais alta que a gravidade do mundo anglo-saxão. O carnaval mostra a matéria de que somos feitos, por baixo dessa mímica de "Ocidente" que o Brasil tenta há quatro séculos.

Há uma "orientalidade africana" em nossa vida. A África e os índios nos salvaram, assim como salvaram os USA. Que seria da América sem o jazz? Um país branco-azedo, cheio de "wasps" tristes.

Nosso carnaval mostra que o Inconsciente brasileiro está à flor da carne. Quanto mais civilizado o país, mais fundo o recalque. Já imaginaram um carnaval na Suíça? Talvez o carnaval seja uma doença salvadora, uma epidemia de "desbunde" de que o mundo precisa, por só conhecer a guerra, a velocidade e o mercado cruel.

Na razão do carnaval existe algo mais além da imoralidade; há uma santidade nesta explosão de carne que não se explica. Onde existem estas montanhas de corpos se atirando uns aos outros, com sexo e música? A sacanagem das matas profundas é diferente das surubas calvinistas de Nova York, que inventaram o sexo torturado nas boates doentias e acabaram na aids. A "razão perversa" é a razão do carnaval. Não a perversão como "pecado", mas como mímica de uma liberdade, como a busca de uma civilização "não civilizada", de um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.

No carnaval há a tesão por uma trepada libertadora, que seja a revelação definitiva.

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