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O defunto que fracassou

A multidão em fúria cercou a casa: o poeta-soldado prometeu morrer, e não o fez

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2019 | 02h00

Embora me considere o melhor cronista do condomínio onde vivo – o Cosme e Damião, constituído por dois predinhos, no total de 12 apartamentos, apenas um deles habitado por escrevinhador –, não tenho a pretensão de achar que você se possa se lembrar de prosa minha publicada aqui, e não apenas por já terem se passado quatro ou cinco anos. Mas não é impossível que lhe tenha ficado na memória algum fiapo de uma figura de que então me ocupei – não por mérito do cronista, é claro, e sim do personagem, bizarro o bastante para que Fernando Sabino o encaixasse nas peripécias do romance O Grande Mentecapto.

Estou falando de Jésu de Miranda, tipo popular da Belo Horizonte de outros tempos, que além de militar era poeta das antigas, veterano das revoluções de 30 e 32, mas impermeável à modernista de 22. Versejador compulsivo, sempre na estrita observância de rima & métrica, está hoje esquecido – mas, em vida, chegou a merecer elogios de Vinicius de Moraes, que lhe dedicou toda uma página na revista Vamos Ler: “Jésu de Miranda está longe de ser um mau sonetista. Frequentemente bons versos vêm-lhe à pena.” Vinicius julgou ver no colega mineiro, por seu “gosto poético das necroses”, um discípulo de Augusto dos Anjos. 

O “poeta-soldado”, como Jésu Miranda era conhecido, se fez merecedor, também, de ameaças de bordoada de maridos ciumentos, quando, em 1946, publicou As 100 Mulheres Que Amei, livro que em 1951 ganharia edição ampliada, agora como As 1001 Mulheres Que Amei. “Harun al-Rashid não passaria de um simples eunuco diante do harém do poeta Jésu de Miranda”, embasbacou-se um crítico, aludindo ao legendário califa em cujo reinado transcorrem as mil e uma noites.

Como nem tudo foram elogios, quase teve que mudar seus planos quem um dia escrevera, sonhador: “Quero um dia morrer nos braços das mulheres”. Entrara no horizonte a imprevista possibilidade de acabar de forma menos idílica, numa poça de sangue. Sim, pois houve quem julgasse reconhecer amante ou esposa sua na versalhada escaldante de Jésu Miranda. Um desses leitores chegou a se engalfinhar na rua com o poeta, o qual, tendo reagido, feriu o agressor, num episódio que lhe custou processo e cana. 

“Que me condene aquele que quiser”, bravateou em decassílabos o poeta-soldado, “por eu sinceramente confessar / ser um homem tarado por mulher!”. Por pouco não se arrependeu de haver escrito: “Uma bala talvez que não se espere/ se me ferir o físico mortal/ a asa imortal da inspiração não fere!”. Na imprensa, um colunista gaiato anunciou que Jésu de Miranda estaria cogitando uma edição prudentemente revista do livro de 1946, com o título remarcado para As 99 Mulheres Que Amei.

Do poeta-soldado bem pouco terá ficado além de persistente folclore. Otto Lara Resende gostava de citar a frase solene com que ele se despedia numa roda de conversa: “Vou me recolher à biblioteca de meu ser”. Hiperbólico, Hélio Pellegrino enchia o peito para declamar um decassílabo a seu ver perfeito, abertura do poema autobiográfico Eu: “Nasci em Guaxupé, no sul de Minas...”.

Minha geração, em boa parte criada à sombra de Murilo Rubião, criador do Suplemento Literário do jornal oficial Minas Gerais, já não encontrou Jésu de Miranda na paisagem lítero-boêmia da segunda metade da década de 60. Parecia definitivamente recolhido à biblioteca de seu ser. Até onde a vista alcança, seu último feito público data de 1962, quando, aos 52 anos, fez saber que morreria, de morte morrida, no dia 17 de determinado mês. O populacho pôs-se em polvorosa – e não faltaram reações de decepção e raiva quando Jésu de Miranda entrou, vivo, no dia 18. 

Foi preciso que um psiquiatra, José Nava – irmão do memorialista Pedro –, também ele escritor, além de major da Polícia Militar, atestasse a sanidade mental do defunto fracassado. “Ele não é um louco”, atestou Nava ao Diário da Tarde, “apenas um grande poeta.” Na sua avaliação, de anormal havia apenas a histeria coletiva dos inconformados que cercaram a casa do poeta – o qual só viria a “desobjetivar”, como gostava de dizer Vinicius, aos 69 anos, não se sabe se em braço de mulher ou não.

Fazia tempo que o poeta-soldado passara à reserva da Polícia Militar, como tenente – grau de que muito se orgulhava, ganhador que fora de medalhas nas duas revoluções de que participou, e do qual só abriu mão quando, num soneto, precisou de uma rima crucial. O tal poema, aliás, cujo primeiro verso Hélio Pellegrino gostava de tonitruar, e que Sabino pôs na boca do doidinho Geraldo Viramundo: “Nasci em Guaxupé, no Sul de Minas!/ Criei-me em Juiz de Fora, entre a gentalha!/ Abracei, tanto o bom, como o canalha, / e amei, da mulher santa às messalinas!/ Como soldado em campo de batalha,/ lutando pelos montes e campinas,/ ora nos bosques, ora nas colinas,/ batidas pelo fogo da metralha,/ demonstrei o maior patriotismo,/ quando em perigo a impávida Nação!”. 

Chegado a este ponto do soneto, o poeta vislumbrou chave de ouro na qual a última palavra seria insubstituível o bastante para justificar uma licença, não poética, porém militar, ainda que ao preço de rebaixamento na carreira. De fato, nem mesmo o mestre Augusto dos Anjos daria conta de rimar “tenente” com o objeto primordial da paixão do poeta-soldado, que se dispôs assim a mais um sacrifício: “Cumprindo o meu dever com heroísmo,/ na vida militar cheguei a alferes!/ E foi no mundo a minha diversão:/ – Briga de galos, versos e mulheres”. 

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