O debate ausente

Estamos a uma semana das eleições e, desde a volta à democracia em 1985, não se viu uma campanha política tão fraca, tão vazia e desencantada. O eleitor vai caminhar até as urnas como quem caminha para cumprir uma obrigação desagradável; vai como quem precisa fazer a visita anual ao dentista, só que sem esperança de passar o incômodo. A popularidade do presidente Lula e a ampla expectativa de continuidade em quase todas as regiões, inclusive naquelas dominadas por opositores, poderia sugerir a um observador externo que o povo está em festa pelo sucesso da democracia brasileira, mas, na verdade, o que o ocorre é uma sensação de que a vida econômica melhorou, acompanhada de uma frustração ampla, geral e irrestrita com a classe política e com a moral vigente. O voto em figuras estrambóticas como Tiririca não é um voto de protesto; é de deboche e cinismo.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

O Febeapá (Festival de Besteiras Que Assola o País, expressão de Stanislaw Ponte Preta) é tal que até articulistas sérios afirmam que o problema é que Lula foi atacado demais pela imprensa - e não a série de escândalos que, estes sim de forma inédita na história do Brasil, derrubaram tantos ministros ao longo de seus oito anos de governo, como mais recentemente Erenice Guerra. Esses mesmos articulistas estrilaram o que puderam contra o governo FHC, embora este não tenha precisado afastar tantos companheiros dos mais altos cargos em função de denúncias consistentes. Mas o governo FHC foi "neoliberal", claro; fez privatizações, Proer e lei de responsabilidade fiscal. Ou seja: para esses formadores de opinião, a corrupção é mais tolerável se a ideologia for mais apreciável. Não por acaso muitos foram parar no governo, onde agora empregam seus filhos e irmãos na TV Lula, nos Correios, etc. Se casos assim tivessem sido revelados em 2002, teriam provocado artigos e mais artigos biliosos. Hoje um dos envolvidos afirma que "pode ser imoral, mas não é ilegal" e ninguém diz nada, ou então se ressuscita termos como "udenismo" para atenuar os atentados petistas à maquina pública.

Quem criticou tucanos e petistas por tantos impostos e impunidades, como eu, é acusado de ser "isento demais", como foi dito no meu blog outro dia. Respondi que ou se é isento ou não se é. Pois o que temos do outro lado? Os bajuladores do governo anterior dizendo que estamos vivendo sob o fascismo, sob um autoritarismo digno de Mussolini ou Fidel Castro. Não, esta sociedade é imaturamente democrática, o PT divide poder com outros partidos, Lula não tentou o terceiro mandato, o mercado é livre apesar do corporativismo estatal, a censura aparece em lamentáveis casos pontuais. Uma coisa é criticar, como eu tanto critico, os impulsos demagógicos ou populistas de Lula, as declarações contra a imprensa dele e de figuras arcaicas como José Dirceu, o abuso da propaganda oficial na sucessão, a falta de independência de institutos públicos de pesquisa, etc. Outra coisa é dizer que Lula impôs seu sucesso e sua sucessora goela abaixo da horda ignorante.

Se a oposição não conseguiu levantar pautas novas e críticas contundentes em oito anos de governo, por que conseguiria em oito meses de campanha? Vergados pelo rabo preso nos principais escândalos (agora mesmo pipocaram casos de propinas em Mato Grosso, no Amapá e em Goiás com participação de todo o espectro partidário) e pela aprovação de quase 80% ao governo atual (reforçada pela simbologia do "um de nós que chegou lá", mesmo que Dilma tenha nascido no colo da tal burguesia), os partidos não aliados ficaram restritos a murmúrios periódicos. É por isso que manifestos como o assinado nesta semana por personalidades como Hélio Bicudo, um dos únicos que não entraram nessa de arranjar desculpa para os peculatos e os nepotismos, são importantes. Mostram que a sociedade é - ou deveria ser - maior que a briga PT x PSDB, maior que as desconsoladoras opções que temos na hora de votar.

Tão grave quanto tudo isso é a escassez quase total de propostas mais relevantes. Alguns falaram em reforma tributária e política, mas ninguém falou como seriam e nem como fariam para ter o apoio parlamentar. Apenas o PV tocou em assuntos da modernidade como o desenvolvimento sustentável, sem conseguir mostrar que é capaz de deixar o tom semirreligioso de lado e ir além dos bloqueios a qualquer grande obra de infraestrutura. A questão complexa e urgente das metrópoles, com suas periferias favelizadas e violentas, não recebeu mais que menções passageiras; duvido que alguém tenha um plano razoável para o saneamento. Quase nada se falou sobre aborto, casamento gay e outros temas morais. Sobre educação quase todos falaram, mas não do ponto de vista do conteúdo, da valorização da ciência e da tecnologia, da necessidade de investir em pesquisa, inovação, patentes; enquanto isso, a China investe pesado na área e cria lugares como o que vi na província de Chengdu, uma espécie de Vale do Silício, como a Índia tem em Bangalore. Aqui as autoridades parecem satisfeitas com uma economia que vive da venda de commodities e não requer altos níveis de instrução.

O que mais se vê são propostas esdrúxulas ou impraticáveis. E mesmo gente que tem o que dizer, como Fabio Feldmann, se perde em sugestões miúdas como IPVA variável (por um chip se saberia quanto o carro rodou no ano e a cobrança seria proporcional); Aloysio Nunes fala em liberar FGTS para pagar os estudos (o que exigiria emenda constitucional e não resolveria os problemas maiores, a qualidade das escolas públicas e o gargalo do ensino médio); José Serra lembra que toda cidade com mais de 500 mil habitantes deveria já pensar em metrô (o que é verdade, mas não faz o dinheiro aparecer). E Dilma Rousseff? Alguém aí sabe me dizer o que ela pensa e propõe, afora as frases que todos dizem como "investir em saúde e educação" ou a promessa de continuar o trabalho de "Nosso Guia"? Até a nomeação de Erenice ela atribuiu a ele, que se julga acima da crítica. Não é por acaso que Dilma não vai aos debates ou não vai bem neles, porque não tem ideias próprias. Nesse sentido, está em perfeita sintonia com a vasta maioria de seus concorrentes e dos brasileiros.

Zapping. Depois de um começo ameno, apostando nas paisagens toscanas, a novela Passione esquentou e passou a justificar seu nome. Em comparação com outras que investiam na conversa fiada ao som de MPB ou nas campanhas politicamente corretas, a atual novela das nove é o que o gênero pede: um folhetim melodramático no qual o público se projeta e tenta influir, revelando muitos valores em conflito no Brasil de hoje. Todas as novelas mais lembradas, como Roque Santeiro e Vale Tudo, foram assim. Passione não está nesse patamar, mas tem personagens e atores muito mais interessantes do que suas antecessoras.

Começo pelas ressalvas. É certo que o brasileiro é barraqueiro e emotivo, só não precisa forçar tanto: há uma troca de insultos e choros a cada bloco! As "adaptações" do italiano também incomodam: na mesma frase o personagem usa um termo em português que não teve tempo de conhecer e um termo em italiano que basta uma semana no Brasil para saber sua tradução; isso para não falar do excesso de bordões que não são assim comuns na Itália. O merchandising chegou a tal ponto que a empresa da ficção existe na realidade; e os penteados, vestidos e móveis também são pensados para gerar negócios. Acima de tudo, como as novelas ficariam melhores com a metade dos capítulos! Situações se arrastam e improvisos são mal feitos - como um personagem, Antero (Leonardo Villar), que de repente vira italiano, Giovanni - porque a novela dura nove meses e as pesquisas levam a mudanças.

Há, porém, muitos pontos fortes. O principal é o de colocar uma paixão ou tara ou obsessão em cada um dos personagens: a madame que caça garotões (Maitê Proença), o bonitão da ZL que quer vingar o pai (Reynaldo Gianecchini), o jovem rico drogado (Cauã Reymond), a velha exploradora de meninas (Daisy Lucidi), a gata golpista (Mariana Ximenes), o já cansativo segredo de Gerson (Marcelo Antony). Isso os torna planos, rasos, mas cabe aos bons atores levá-los além dos estereótipos e gerar discussões. E bons atores não faltam, ao contrário do que ocorria em Viver a Vida, e em especial na velha geração: Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Irene Ravache, Tony Ramos (mais uma vez roubando as cenas, apesar do desprezo que os "especialistas" lhe devotam).

Como sempre em Silvio de Abreu, a parte cômica se destaca, sobretudo o caso da bigamia (Bruno Gagliasso com Gabriela Duarte e a talentosíssima Leandra Leal, agora mais bonita), mas as brigas pelo poder na empresa da família também têm algumas boas cenas. Novelas, como times de futebol, fazem as pessoas torcer e, com isso, modificar a narrativa. Clara ficará "do bem" depois de perder Totó e assumir a irmã Kelly? Ou Totó ficará com a aguada Felícia (Larissa Maciel) e esta mostrará um lado menos "certinho"? Balzac e Jane Austen fariam maravilhas com esses temas, mas uma novela é uma novela e milhões assistem. Por menos tempo e paciência que você tenha, não pode lhe negar o poder de sedução. Punto i basta.

Por que não me ufano (1). Da série perguntar ofende: se a propaganda oficial sempre martelou a supremacia mundial do processo eleitoral brasileiro, com suas urnas eletrônicas ultrasseguras, por que agora será preciso levar dois documentos (RG e título de eleitor) no dia da votação?

Por que não me ufano (2). Da mesma série: o que o filme Lula, o Filho do Brasil, tem que outros filmes brasileiros do ano não têm, para ser candidato a concorrente ao Oscar? Sucesso de público? Não, porque não chegou a 1 milhão de espectadores e nunca antes neste país houve filme tão caro. Sucesso de crítica? Tampouco. Nem os lulistas mais passionais viram mérito suficiente na narrativa arrastada e hagiográfica da vida de Lula antes da presidência.

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