Coleção Estatal de Arte de Dresden
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O Cupido de Vermeer

No século 19, foi redescoberto e, hoje, são catalogadas pouco mais de 35 telas de sua lavra

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2021 | 03h00

Delft era uma cidade vibrante no século 17. Era ponto importante da Companhia das Índias Orientais, uma empresa holandesa que revolucionara o comércio global.  

Naquela rica e pujante urbe, em pleno século de ouro da pintura neerlandesa, viveu um de meus pintores favoritos: Johannes Vermeer. Sabemos pouco sobre ele. Quase nada, para dizer a verdade. Vivia de forma modesta, beirando a pobreza, como comerciante de arte. Casado e pai de incontáveis filhos, Vermeer chegou a ser presidente da guilda local de pintura, porém isso não lhe garantia sustento, apenas um limitado prestígio local. 

Tão logo morreu, caiu no esquecimento. Nos séculos que se seguiram, obras assinadas por ele foram vendidas com o nome de outros pintores, com o intuito de valorizá-las. No século 19, foi redescoberto e, hoje, são catalogadas pouco mais de 35 telas de sua lavra. Certamente pintou mais, porém elas se perderam. São poucas cenas de exterior (uma delas mostra a sede da VOC). A maioria mostra um mesmo cômodo de sua casa, sempre o canto esquerdo com a janela à vista e como foco de luz, variando o ângulo do pintor, os objetos retratados, o fundo e as personagens.

O filme Moça com Brinco de Pérola (2003) mostra a talentosa Scarlett Johansson como a menina que posou para o pintor em boa parte de seus quadros, incluindo a pintura homônima. A história é totalmente ficcional.

Entre seus temas conhecidos, está o de uma jovem ou uma mulher lendo uma carta diante de uma janela aberta. Numa delas, um mapa ao fundo. Em outra, a parede vazia. Em ambas as telas, a solidão de quem lê notícias (seriam boas?) de quem está distante. Pois, em 1979, a galeria Gemäldegalerie Alte Meister, em Dresden (Alemanha), local de custódia da tela em que uma garota lê uma carta com uma parede vazia por trás dela, submeteu a obra a um raio X. Atônitos, os curadores perceberam que o pintor, aparentemente, escondera uma pintura de um cupido por trás de uma grossa camada de tinta. Em 2017, depois de anos e anos de estudo, concluíram que a intervenção que escondera o cupido (razão da tristeza da moça, que lia a carta de seu amado distante) era muito mais recente. Talvez do tempo em que Vermeer se tornara um simples desconhecido. E começaram um meticuloso restauro da tela, tirando a capa de tinta do deus do amor.

Se você ocultou Eros em 2021, desejo que restaure. O ano foi bicudo, chegou a hora de desejar amor de novo. Amor é um gesto de esperança. 

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