O CSI renascentista de Peter Greenaway

O CSI renascentista de Peter Greenaway

Em A Ronda Noturna, filme inspirado na obra de Rembrandt, diretor investiga os segredos da pintura

Catherine Shoard, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

"Não sei muito a seu respeito e sinto dizer, mas você vai morrer. O restante pode ser negociado", afirma Peter Greenaway, bebericando seu chá de menta. E pode também ser ignorado. Para ele, existe o sexo e a morte e "o que mais há para se conversar?" Ele diz acreditar "que todas as religiões lidam com a morte e a arte lida com a vida. A religião está aqui para dizer: ei, não precisa se preocupar - o além existe. A cultura representa o oposto disso - sexo. Sei que parece uma perspectiva freudiana estúpida, mas uma delas é positiva e a outra, negativa. Principalmente em relação a pessoas como você. Todas as religiões sempre detestaram as mulheres."

Estamos num café em uma praça grande e úmida em Amsterdã. No lado oposto vemos o Rijksmuseum, pelo qual Greenaway acaba de me conduzir num passeio de primeira classe: enrolando os erres, acentuando os T, martelando imensas e profundas pausas entre cada sílaba.

Percorremos o museu até encontrar A Ronda Noturna, tela de Rembrandt repleta de mosquetes e tema do mais novo filme de Greenaway, A Ronda Noturna (Nightwatching). Trata-se de uma espécie de CSI (programa que ele admira) renascentista, investigando os segredos da própria pintura e o mistério da súbita queda do artista na virtual indigência. Martin Freeman interpreta Rembrandt - estranhamente plausível e com frequência nu.

Na verdade, Nightwatching é um filme consideravelmente mais convencional do que a maior parte das obras anteriores do diretor. Um exame de fácil digestão sobre - é claro - o sexo e a morte, e algumas das outras principais preocupações de Greenaway: pintura, esnobismo, conspiração.

A Ronda Noturna é, para Greenaway, a primeira obra verdadeiramente cinematográfica, por causa da manipulação da luz artificial por parte de Rembrandt. Mas, se estivesse vivo hoje, o pintor "rodaria seus filmes em holografias. Ele seria pós-pós-James Cameron". "Todos os grandes artistas e criadores usam a tecnologia de seu tempo, e aqueles que não o fazem viram fósseis." No caso de Greenaway, isso significa avançar no sentido do "longa-metragem como ensaio. Como Montaigne. É algo muito mais discursivo. Não temos que nos ater a uma narrativa psicológica nem recorrer ao impressionismo. Não quero levar o espectador a parte alguma. Não se trata de uma obra escapista."

Aos 67 anos, Greenaway não está mais interessado no cinema em si - um suporte quase morto, desperdiçado com as tentativas de imitar a narrativa dos livros, "contando histórias de ninar para adultos. Harry Potter e Senhor dos Anéis são livros ilustrados, e não cinema. Quero ser um grande criador. Coisa que todo artista dotado de respeito próprio quer ser". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FILMES PRINCIPAIS

1985

Zoo - Um Z e Dois Zeros

1987

A Barriga do Arquiteto

1989

O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante

1996

O Livro de Cabeceira

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.