O crítico no espelho

Aos 73 anos e 21 livros, o ensaísta Luiz Costa Lima tem sua trajetória revisitada em uma coletânea de entrevistas concedidas a especialistas de diferentes gerações - de ex-orientandos a colegas de profissão

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Um intelectual predestinado à polêmica, que não hesita em questionar conceitos elaborados por autores consagrados. Um crítico nascido em um país de poucos leitores, dedicado à análise e, sobretudo, à teoria literária e que, nas últimas quatro décadas, publicou 21 livros - alguns deles, já clássicos em seus respectivos campos de estudo. Aos 73 anos, Luiz Costa Lima, maranhense que passou a vida entre o Recife, onde se formou advogado, em 1959, e o Rio, cidade em que vive desde 1964, tem uma oportunidade dada a poucos: rever seu trabalho por meio de entrevistas conduzidas por especialistas de diferentes gerações, de ex-alunos a colegas e admiradores da originalidade e da independência de seu pensamento. O presente - certamente uma referência para o futuro - está em Luiz Costa Lima: Uma Obra em Questão (Garamond), livro organizado pelo escritor Dau Bastos, seu orientando no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro há 20 anos.

Uma passagem contada por Bastos na apresentação do volume ajuda na elaboração da personalidade do pensador Costa Lima: quando entrevistado pela banca examinadora, da qual o professor fazia parte, o candidato, sem saber que o próprio estava ali (não o conhecia pessoalmente), desqualificou considerações feitas pelo crítico acerca da obra de Clarice Lispector, sobre a qual era então arguido. Quando entendeu o que tinha acabado de fazer, Bastos considerou-se automaticamente reprovado. Nada. Costa Lima não só não foge, como tem sede de confronto de ideias - sem que isso implique o gosto de cultivar inimigos. O livro de Bastos é, pelo próprio envolvimento entre organizador e protagonista, a maior prova disso.

"É um traço da personalidade dele. Não admite arredar o pé", diz Silviano Santiago, colega da academia desde 1972. "É uma pessoa que gosta de lançar novas ideias, e que quer saber como as pessoas as recebem. Nos anos 70, para o ambiente relativamente parado do Brasil, causou espécie."

Augusto de Campos, cujo trabalho já foi alvo da apreciação de Costa Lima, o situa como alguém que "na sua geração, teria algo de um Walter Benjamin". "É incomum sua abertura para o novo, pouco frequente em críticos que, como ele, incluem em sua visada interpretativa uma perspectiva sociológica. Como teórico literário, tem uma contribuição muito consistente e talvez única, qualificada pelo seu amplo conhecimento da crítica e da filosofia internacionais, a germânica em específico (raridade entre nós)", ressalta Campos.

"Evitar a dissensão não é algo só brasileiro, mas de toda a colonização portuguesa e espanhola", lamenta Luiz de França Costa Lima Filho, que recebeu o Estado no escritório de sua casa, na Gávea, no Rio, a poucos metros do câmpus da PUC, onde dá aulas.

Lupa. Está ali entrincheirado em meio aos cerca de sete mil volumes que amealhou, das mais distintas áreas do conhecimento (filosofia, história, sociologia, artes) e que se distribuem por todos os cômodos da residência, incluindo o quarto da empregada (é o espaço para a prosa brasileira). Sete mil, repita-se - e ele continua a comprar mais e mais, inclusive em sites de sebos estrangeiros e brasileiros, para desespero da mulher, a psicanalista Rebeca Schwartz.

Sobre a mesa do escritório, empilham-se manuscritos que darão origem a novos textos. A letra é tão miúda que ao hipermetrope só resta lançar mão da lupa. "É um verdadeiro fetiche", brinca o professor. "Quando começo a digitar já é uma segunda versão." Até o resultado final, serão muitas versões. Mesmo depois de publicar, ele continua revisando, mirando, quem sabe, novas edições.

Em livros, ensaios e textos para jornais, Costa Lima se debruçou sobre autores contemporâneos, como os ficcionistas Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Jair Ferreira dos Santos e Rubens Figueiredo e os poetas Sebastião Uchoa Leite, Dora Ribeiro, Ronaldo Brito e Carlito Azevedo.

Dedicou-se também a clássicos tão distintos quanto Shakespeare e Stendhal, Machado de Assis e Gilberto Freyre. Há ainda análises sobre Clarice, como foi citado antes, Euclides da Cunha, Cornélio Penna, Drummond e João Cabral de Melo Neto, com quem, aliás, conviveu em Madri, nos anos 70. Não lhe faltou ousadia para contestar Eric Auerbach, estudioso alemão de literatura comparada, nem o mestre e amigo Antonio Candido - de quem foi doutorando em Letras na USP, também na década de 70. Nesse caso, credita as "divergências" ao fato de a abordagem de Candido ser "mais histórico-sociológica", enquanto a sua tem componente filosófico.

Teoria. A maior contribuição de Costa Lima, mostra o livro organizado por Dau Bastos, e concordam os que acompanham sua intensa produção, é no campo teórico. Especialmente no tocante às noções de mímesis e controle do imaginário, temas que desenvolve há três décadas. Em Uma Obra em Questão, ele revisita livros como Mímesis e Modernidade (1980), o primeiro a abordar o assunto - "Foi quando encontrei minha própria voz", avalia -, e O Controle do Imaginário & a Afirmação do Romance (2009), duas de suas publicações mais importantes.

A primeira entrevista do volume-homenagem foi conduzida por Ana Lúcia de Oliveira; a segunda, pelo próprio Bastos. Entre os demais entrevistadores estão o alemão Hans Ulrich Gumbrecht, da Universidade de Stanford, e Martha Alkimin, da Universidade Federal do Rio.

João Adolfo Hansen, da USP, o confronta com questões de O Redemunho do Horror (2003). Ao falar à reportagem sobre a obra de Costa Lima, Hansen cita Pensando nos Trópicos, reunião de ensaios de 1991, cujas questões foram recuperadas no livro pelas perguntas de Rodrigo Labriola, da Universidade Federal Fluminense. "Acho que o título nos ajuda a situar as coisas: "pensando", isto é, uma ação contínua e teimosamente repetida, "nos trópicos", um objeto heteróclito, sempre móvel e que escapa, monstruoso, por ser contraditório, e que se dá "nos trópicos", um lugar, este, Brasil, que condiciona o pensamento e muitas vezes o censura, impede e mata."

Todas as respostas que compõem o livro foram enviadas por e-mail. Não, o homem que coleciona papeizinhos com letras pequenas não rechaça as facilidades tecnológicas - embora não seja seduzido pelo e-book e desconheça o Twitter. Ele gosta de sentir o peso do livro na companhia deste velho conhecido - seu e da humanidade. Avesso a "eventos sociais que têm como pretexto a literatura", como, exemplifica, a Festa Literária Internacional de Paraty, este autor não tem pretensões em relação à Academia Brasileira de Letras.

Por preguiça, Costa Lima pouco vai ao cinema, ao teatro e a exposições. Já a música está sempre presente: violinista na adolescência, é fã de "MPB de qualidade" e jazz. Mas não na hora de trabalhar: prefere o silêncio da Gávea.

Tentação. São tantas horas dedicadas à atividade intelectual, à função de professor e às aulas particulares de alemão que ainda faz (além deste, domina quatro idiomas estrangeiros, inglês, espanhol, francês e italiano) que mal sobra tempo para leituras descompromissadas.

O livro que primeiro o cativou, adolescente, então fissurado por números, e não por letras, chama-se A Montanha dos Sete Patamares, do norte-americano Thomas Merton. "Meu pai não tinha interesse maior por literatura, mas era assinante do Círculo do Livro. Este livro me fez ver que eu não queria estudar mais matemática, e sim literatura. Muito depois fui descobrir que o (João) Cabral é que tinha traduzido. Tenho ele até hoje."

Quando há tempo, a tentação é voltar aos autores de toda a vida: entre os brasileiros, Machado, João Cabral e Guimarães Rosa; entre os de estrangeiros, Kafka, Cervantes e Samuel Beckett. O irlandês é o único da lista sobre o qual ainda não escreveu. Mas com certeza Godot não perde por esperar.

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