O crime e a questão do prazer

Alberto Mussa combina sexualidade e assassinato em seu novo livro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Alberto Mussa, escritor

Um figurão do governo é encontrado morto em um prostíbulo de luxo, no Rio de Janeiro. A polícia, além de acobertar o escândalo, investiga os suspeitos: um capoeirista e um velho que lida com espíritos. Apesar de parecer atual, o caso se passa em 1913, durante a presidência de Hermes da Fonseca, e é o mote para o novo livro de Alberto Mussa, O Senhor do Lado Esquerdo, lançado agora pela Record.

Sempre interessado no cruzamento de gêneros literários, Mussa utiliza aqui a narrativa policial para lidar tanto com as tradições indígenas e africanas como o conhecimento científico ao mesmo tempo em que recupera as transformações no Rio de Janeiro do início do século passado - o prostíbulo, aliás, funciona na antiga residência da Marquesa de Santos. E o livro parte de uma instigante citação: "O que define uma cidade é a história de seus crimes". O resultado é um texto desprovido de psicologismos e que aposta no enredo como principal trunfo, como explica o autor na seguinte entrevista.

Que tipo de pesquisa foi necessária para esse livro?

Há duas categorias, duas linhas do chamado romance histórico. Na sua forma clássica (a de romances como Guerra e Paz, Quo Vadis, a série dos Reis Malditos, etc.), a pesquisa é fundamental, porque o que se pretende é reproduzir uma época, nos seus mínimos detalhes, recriando literariamente personagens e situações verídicas. Não se pode fazer isso sem uma pesquisa exaustiva. Pertenço, acredito, à segunda linhagem: a dos escritores que apenas ambientam seus enredos em épocas pregressas, sem o intuito de recriar realisticamente episódios ou personagens conhecidos. Nesse caso, não é necessário fazer, como não faço, estudos exaustivos sobre a época e as personagens. O que faço é uma espécie de imersão no universo da época: leio muitos livros que se passam no período ou sobre o período em questão, para me impregnar daquele meio e daquele tempo. É claro que certos detalhes (tipo de vestuário, nome de ruas, etc.) necessitam de pesquisa. Mas são pesquisas pontuais. Há livros acessíveis de consulta que resolvem rapidamente o problema.

A citação no início do livro lembra Ítalo Calvino ("As cidades, como nossos sonhos, são construídas por desejos e medos"). Como surgiu essa relação?

O Senhor do Lado Esquerdo retoma um projeto antigo, que começou com O Trono da Rainha Jinga: escrever cinco novelas policiais, uma para cada século da história da cidade. Essas são as dos séculos 17 e 20. Comecei agora as leituras para a do século 16, que vai se chamar A Primeira História do Mundo - e que terá, também, muitos casos de crime e de mistério. No prólogo do livro (que é, naturalmente, uma brincadeira) tentei dar uma "liga" a essa pentalogia. A ideia é que cada cidade possui crimes característicos que definem a sua personalidade. Não sei se isso é verdade, no plano histórico ou sociológico. Mas certamente é, no universo literário. A literatura só vale a pena se for diferente da vida.

Apesar de o crime ser o fio condutor da trama, a questão do prazer corre em paralelo e é apresentado sob diversas formas, tanto liberado como represado.

Esse é, no fundo, o assunto do romance. A ideia de que os conflitos - as relações humanas em geral - têm como fundamento a disputa pela supremacia sexual, que se materializa pelo controle do orgasmo. É uma batalha difícil, porque a sexualidade humana é extremamente complexa, vai muito além de uma reação fisiológica a estímulos táteis. É no campo das fantasias que a sexualidade acontece de verdade. E a libertação das fantasias, particularmente das femininas, sempre foi o grande temor, o grande impasse das estruturas sociais, em todas as culturas, em todos os tempos. Hoje, inclusive. Meu romance trata disso, de uma forma provocativa, que não sei se é verdadeira.

Leonardo Sciascia usava o suspense para falar sobre identidade. Ele é uma influência?

Sciascia é um dos escritores que mais admiro, como Dürrenmatt, Chesterton, Agatha Christie, Borges, Bioy Casares (esses dois últimos separados ou unidos em Bustos Domecq) e outros da escola norte-americana, como Hammett e Chandler. A literatura policial tem um elemento que me fascina: a racionalidade, a possibilidade de discutir um assunto pela via intelectual, não subjetiva e não sentimental. Há grandes romances que fazem isso e não são tidos como policiais, embora se valham da técnica, como Crime e Castigo, de Dostoievski, ou Estranha Confissão, de Chekhov.

Muitos escritores acreditam que o romance deve muito ao policial ao manter a necessidade de categorias claras: personagens, investigação, demanda, conclusão.

Acho que o romance moderno deve ao gênero primitivo que deu origem à prosa de ficção: a história extraordinária. Uma história policial que mereça tratamento literário tem sempre algo de extraordinário, um crime cuja solução seja banal não tem interesse. Quando as pessoas param à noite para conversar, seja na calçada de uma cidadezinha ou no botequim de uma metrópole, contam histórias extraordinárias, trágicas ou engraçadas, mas sempre com algum elemento de excepcionalidade. Há uma certa linhagem literária que considera a "linguagem" o fundamento da literatura. Discordo: a linguagem é a vestimenta, que deve ser sempre elegante, sedutora, original. Mas não pode vestir o vazio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.