O criador do 'pijama listrado'

Autor de um dos maiores best-sellers dos últimos anos, Boyne lança novo livro e vem ao Brasil

Entrevista com

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

O autor. Influência da literatura russa na elaboração da nova obra, 'O Palácio de Inverno'

 

 

John Boyne tinha 35 anos e três romances já publicados quando O Menino do Pijama Listrado, sobre o Holocausto visto sob uma perspectiva infantil, colocou-o no topo de listas internacionais de best-sellers e foi adaptado ao cinema. Hoje, aos 39, com mais de 5 milhões de livros vendidos e traduzido para 42 idiomas, o irlandês só lamenta o tempo escasso para a escrita, já que passa até quatro meses por ano em países onde é editado.

Uma das próximas viagens será para o Brasil: ele é um dos convidados da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorre de 12 a 22 de agosto. No mesmo mês, sai por aqui O Palácio de Inverno (tradução de Denise Bottmann, Companhia das Letras, 453 págs., preço a definir), sobre um jovem camponês que, às vésperas da Revolução Russa, torna-se guarda-costas do filho único do czar (leia abaixo). Veja trechos da conversa de Boyne com o Estado, por telefone, de Dublin.

Depois de escrever um drama sobre o nazismo e uma aventura sobre a marinha britânica, como chegou à Rússia pré-Revolução?

Esse período histórico estava na minha cabeça havia muito tempo. Ainda adolescente, vi o filme Nicholas e Alexandra (1971) e aquilo me impressionou. Comecei a fazer pesquisas cedo, já pensando em escrever um romance. Há dois anos, quando chegou o momento de escrever um novo livro, percebi que era algo que queria fazer. A tragédia dos Romanov, o fato de a história terminar de forma tão violenta, tudo levou naturalmente a um romance.

E autores russos influenciaram você de alguma maneira?

Na verdade, comecei a pesquisa lendo autores russos. Quando escrevo romances históricos, gosto de ler ficcionistas da época para me colocar dentro da história. Tolstoi e Dostoievski, é claro, foram importantes para conhecer detalhes do dia a dia daquele período de um modo como a não ficção não permite perceber com clareza. Anna Karenina foi o que mais me influenciou, voltei a ele várias vezes enquanto escrevia.

A narrativa do Palácio de Inverno é mais complexa que de seus livros anteriores, com a narrativa que vai e volta no tempo...

Sim, o que me desafiou nesse livro é que ele é mais... Quando escrevi O Garoto no Convés, era uma história muito linear, e a estrutura já estava dada com o aspecto histórico. No Palácio de Inverno, eu sabia que não queria contar a história russa de forma cronológica, queria inventar. E achei que seria interessante, por ter escrito tantas histórias sobre personagens jovens, colocar as coisas sob o ponto de vista de uma pessoa mais velha.  

E por que o interesse na história do ponto de vista de jovens?

O que tento fazer no Palácio de Inverno, e também em O Menino do Pijama Listrado e O Garoto no Convés, é pegar a sensação de um jovem que está no centro de um grande evento histórico e testemunha o que acontece ao redor sem entender bem. O interessante é que, de certa forma, o personagem está na posição do leitor, que vê o estopim dos eventos antes de eles acontecerem. No caso do Palácio e do Convés, há ainda outra semelhança. Ambos mostram um inocente no centro da ação e vai parar perto do poder. O czar e o capitão, respectivamente, têm algo de figuras paternais.

Você escreveu três romances antes de O Menino do Pijama Listrado e três depois. O que muda quando se vira um best-seller?

A vida inteira muda, não há tempo para mais nada. Antes de O Menino do Pijama Listrado sair eu não tinha leitores em outros países. Claro, qualquer escritor quer o maior número de leitores possível, então isso foi bom, mas, ainda assim, preciso ficar em casa e escrever romances, e agora tenho de passar o tempo todo viajando, indo a países onde sou publicado. Fico fora do país uns quatro meses por ano.

Mas agora deve ser fácil para viajar aos lugares sobre os quais escreve, algo que não pôde fazer no caso do Pijama Listrado.

É, uma vantagem é a liberdade para fazer muito do que quero. Se quero descrever um país, posso me dar ao luxo de viajar e passar algum tempo. No caso do Palácio, foi especialmente importante conhecer a rotina de São Petersburgo, as pessoas. E, é claro, o Palácio do Inverno em si. Como é hoje um museu, pude ir lá todo dia e escrever enquanto ainda estava lá.

No caso do Pijama Listrado, você foi a Auschwitz só depois do livro. Como foi ver o que antes tinha descrito sem conhecer?

É um lugar incrível. As emoções que você experimenta lá e o jeito como se sente são muito diferentes do trabalho de escrever um livro. Quando se está lá, só se pensa nas pessoas que morreram. E o livro é teoricamente em Auschwitz, mas o nome Auschwitz nunca é citado, então eu tinha essa liberdade.

Ainda sobre viagens: conhece o Brasil, tem alguma ideia de como são as coisas por aqui?

Acabei de ler um livro chamando Heliópolis (romance sobre a favela paulistana lançado nos EUA por James Scudamore), e foi minha primeira impressão sobre o País. Não sei se isso é bom ou não (risos), mas o romance é ótimo, sobre as enormes diferenças sociais entre os pobres e os ricos e no estilo de vida deles. Mas procurarei ler mais sobre o Brasil antes de chegar aí.

 

QUEM É

John Boyne nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1971. Estudou escrita criativa na universidade e trabalhou em uma editora antes de publicar o primeiro livro, The Thief of Time, em 2000. Alcançou a fama internacional seis anos depois, com O Menino do Pijama Listrado, que ficou semanas em primeiro lugar na concorrida lista de mais vendidos do New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.