"O Cravo e Rosa" ameaça resgatar a paixão pelo folhetim digerível

Catarina, a fera, e Petruchio, o grosso, nasceram um para o outro. melhor seria afastá-los. Eles se ligam feito água e óleo e quando se toleram é por interesse. "O Cravo e a Rosa", a novela das 6 da Globo, nem chegou ao trecho em que os opostos se apaixonam. Mas ameaça resgatar a paixão pelo clichê que faz a glória de um folhetim digerível.É história tão velha quanto a shakespeariana "A Megera Domada" (1594), da qual vagamente se inspira. "O Cravo" mostra que, até quando caricata, funciona a encenação desse gato e rato, machista, divertidamente machista. Novelas recentes têm tido o vício de partir do personagem e só depois jogá-lo numa situação dramática ou cômica. "O Cravo" evita esse crime: começa com situações globais e deixa os personagens se movimentarem a partir delas.Ninguém pára no meio da ação para empolar discurso (Terra Nostra) ou age deliberadamente para obter um efeito (todos em Uga Uga estão ali para "ser engraçados"). Nem se move sem função (Suave Veneno). Na nova novela das 6, temas são introduzidos de forma quase casual para serem desenvolvidos bem depois. "O Cravo" gasta à vontade tempo com ambientação e motivos desopilantes - uma cena pipoca feito espuma até a próxima graça ingênua chegar.Catarina, a fera, e Petruchio, o grosso, não têm medo do ridículo. Seus intérpretes, tampouco. Adriana Esteves e Eduardo Moscovis (ele atua, ele atua) surgem como fênix em cena e é com sabor que os vemos renascer das cinzas. Como Batista, Luís Melo ofusca: é o pai severo, mas sem moral, pois morre de medo da filha. Suely Franco, idem: no papel de governanta, arde em bicas ante a descrição lasciva dos desejos de Bianca (Leandra Leal), a adolescente doida para beijar, mas com medo de doer.O autor Walcyr Carrasco e o diretor Walter Avancini aproveitam o potencial de cinema mudo dos anos 20, com pastelão e tomadas aceleradas em cenas de fuga. Há grandes passagens de uma cena a outra, mas há seqüências no limite do bem dirigido (a regata, os arroubos de Petruchio, o beijo proibido de Heitor e Bianca) e do mal encenado (a algo caricata Catarina e as passeatas feministas, quase todas).O potencial da novela, no entanto, é alto. Será bem-sucedida se conseguir, como "Força de Um Desejo", criar reviravoltas a cada semana. Se não, sua vivacidade terá só o fôlego da arrancada. Como em outra novela qualquer.

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