Klaus Mitteldorf/Divulgação
Klaus Mitteldorf/Divulgação

O crânio dá o seu recado em exposição de arte em Paris

Mostra peculiar em traz retratos de caveiras por artistas de várias épocas, de Caravaggio a Damien Hirst

Otávio Dias (texto) e Klaus Mitteldorf (fotos),

10 de março de 2010 | 04h00

"Memento Mori: Lembre-se de que vai morrer." Essa frase - angustiante, ameaçadora, mas irrefutável - recepciona o visitante na exposição C’est la Vie! Vanités de Caravage à Damien Hirst, em cartaz até 28 de junho no Musée Maillol, em Paris.

 

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Nas artes, "vanitas" são representações do crânio humano que nos relembram que a morte triunfa sobre todos, nossa passagem por aqui é efêmera e todos os seres humanos são iguais diante dela.

 

Foram muito populares em Flandres (região atualmente na Bélgica e Holanda) nos séculos 16 e 17, com naturezas mortas que mostram caveiras ao lado de outros símbolos da efemeridade: frutas podres, ampulhetas e instrumentos musicais - afinal, a alegria e a festa também duram pouco. Mas, como mostra a exposição, o tema da morte e da brevidade da vida esteve presente na pintura e escultura (e mais recentemente na fotografia e no cinema) desde a Antiguidade até os dias de hoje.

 

A obra mais antiga em exibição é um mosaico romano de Pompeia, do Século 1º depois de Cristo. Houve picos de popularidade na Idade Média, com a Europa devastada pela peste negra e a Guerra dos Cem Anos, durante o período Barroco, com Caravaggio e os pintores flamengos, entre as Grandes Guerras do Século 20 e no final da década de 70/anos 80, com o advento da aids.

 

Ressurge com força na moda e no design neste início de Século 21, marcado, por um lado, pelos avanços da genética e, por outro, pelo consumismo em excesso e a ameaça ecológica.

 

A exposição dedica sua primeira sala aos contemporâneos, com obras dos já desaparecidos Andy Warhol ("Um dia todos terão direito a 15 minutos de fama"), Jean-Michel Basquiat e Robert Mapplethorpe e dos ainda bem vivos Gerhard Richter, Yan Pei-Ming e Damien Hirst, entre outros.

 

Esse último chamou atenção ao expor recentemente, em Londres, um crânio humano banhado em platina e coberto por 8.601 diamantes. Há algo mais durável do que um diamante? Não por acaso o polêmico artista britânico foi escolhido para figurar, ao lado do italiano Caravaggio (1571-1610), no nome da exposição. O crânio de Hirst não está na mostra em Paris, mas sim outros trabalhos da mesma lavra (como o da foto principal desta página).

 

Após percorrer as demais salas do primeiro andar (e assistir a um vídeo em que um adolescente, num cenário de guerra, talvez Sarajevo?, faz embaixadas com um crânio), o visitante é dirigido ao terceiro andar, dedicado aos modernos: Paul Cézanne, Pablo Picasso, Georges Braque (que pintou uma alegre ‘vanité’ em tons de verde e rosa), Salvador Dalí...

 

Finalmente, chega-se aos clássicos expostos no segundo andar, com destaque para Caravaggio e Francisco de Zurbaran - ambos retratando São Francisco em meditação com um crânio na mão -, Georges de La Tour (foto menor) e Delacroix, entre outros ilustres e anônimos.

 

A mostra também reúne fotos e esculturas dos artistas mais renomados da atualidade, assim como objetos e joias de várias épocas. Permite uma viagem por mais de 2 mil anos de história da arte em apenas três andares desse pequeno museu, situado em Saint-Germain-des-Prés, no coração de Paris.

 

"Dos artesãos de Pompeia às danças macabras medievais, dos pintores surrealistas do século 20 aos artistas da Pop Art ou os agentes provocadores da expressão artística mais recente, cada geração busca cristalizar a vaidade (‘vanité’) de uma civilização, para se reapropriar de sua morte e reencontrar assim o ciclo da vida", escreve Patrizia Nitti, diretora artística do Museu Mailllol, no catálogo da exposição (300 páginas, 40).

 

Mas uma exposição sobre crânios humanos? Quem quer ver isso durante uma semana de férias em Paris? A resposta é simples: já que a morte é inexorável, é melhor se preparar para ela.

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