Sebastião Moreira/AE
Sebastião Moreira/AE

O cotidiano sob análise

Em Intervenções, com 43 artigos, Renato Mezan revê fatos à luz da psicanálise

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

Em 1935, já chegando ao final da vida, depois de ter batalhado duramente para instaurar a psicanálise dentro do campo das ciências, fazendo com que seus pressupostos teóricos e sua terapêutica fossem reconhecidos, Freud confessa que naquela última década seus interesses haviam se voltado para as questões culturais, dando assim maior atenção a uma antiga paixão despertada na juventude. Diz ele: "No próprio clímax do meu trabalho psicanalítico, em 1912, já tentara em Totem e Tabu fazer uso dos achados recém-descobertos da análise a fim de investigar as origens da religião e da moralidade. Levei então esse trabalho mais um passo à frente em dois ensaios ulteriores, O Futuro de Uma Ilusão (1927) e O Mal-Estar na Cultura (1930). Percebi ainda mais claramente que os fatos da história, as interações entre a natureza humana, o desenvolvimento cultural e os precipitados das experiências primitivas (cujo exemplo mais proeminente é a religião) não passam de reflexos dos conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o superego que a psicanálise estuda nos indivíduos - são os mesmíssimos processos repetidos numa escala mais ampla".

Ou seja, Freud está dizendo que os conhecimentos advindos da descoberta do inconsciente e de seu funcionamento, que tornaram possível a compreensão dos sintomas do paciente expostos na intimidade do consultório, poderiam e deveriam ser usados para entender acontecimentos sociais e culturais, pois em sendo eles produções do espírito humano, da mesma forma neles se manifesta o inconsciente. A esta atividade Freud chamou de "análise aplicada".

Para Freud o analista não deveria se ater à solitária prática clínica. Acreditava que o pensamento psicanalítico poderia enriquecer o debate das grandes causas que movem a sociedade, opinião reforçada mais recentemente por Jacques Derrida. Uma das formas de exercer esta participação no debate público é justamente a "análise aplicada" ou qualquer denominação correlata que se lhe dê hoje, em função dos diversos dialetos teóricos em vigência no campo analítico. Ela possibilita o grande público ver em ação o pensamento analítico elaborando hipóteses e produzindo sentido onde antes prevalecia a perplexidade frente ao aparentemente inexplicável.

Autor de livros de relevo na bibliografia brasileira de psicanálise, exercitando a prática clínica e funções acadêmicas (PUC), Renato Mezan é um analista que não se furta ao debate público. Escreve com frequência em jornais e revistas de grande circulação, instigando seus leitores com interessantes textos de análise aplicada (ele prefere dizer "implicada", que, a seu ver, ressalta o envolvimento ativo do analista com aquilo que aborda).

Em Intervenções, Mezan reúne 43 artigos publicados na imprensa, inclusive no Estado, nos quais comenta acontecimentos, fait divers e produções culturais. Sem assumir o papel onipotente daquele que tudo sabe e tudo explica, neles Mezan mostra como o instrumento criado por Freud continua afiado e absolutamente necessário para a compreensão da alma humana; que a psicanálise não é uma velharia a ser descartada frente a novas aquisições, como é propalado pela neurociência, que dá exclusividade ao tratamento farmacológico e às terapias cognitivistas, apresentadas como a nova panaceia.

Mezan dividiu seus artigos em três grupos. O primeiro mostra seus comentários sobre acontecimentos que foram manchetes, como o ataque do PCC, o menino que foi arrastado pelo carro de bandidos por quilômetros, a moça sequestrada em Santo André, o escândalo do mensalão, os assassinatos na escola de Realengo, a devolução dos quadros roubados no Masp, o "rodeio de gordas", etc. Abre esta seção com um comentário sobre a comoção pública frente à morte de Mário Covas, a quem saúda como um político que não se deixou corromper pelo poder. No artigo seguinte, analisa o fracasso de Marta Suplicy em sua candidatura à Prefeitura de São Paulo, o que atribui a características pessoais da candidata, "em particular a arrogância". Isso lhe serve de gancho para fazer uma bela divulgação sobre a forma como a psicanálise entende esta manifestação do que os antigos gregos chamavam de "hubris".

O segundo conjunto aborda o que o filósofo Castoriadis caracteriza como "imaginação instituinte", ou seja, "a capacidade humana de inventar o novo", de criar novas formas nas diversas esferas da existência. Sob este prisma, Mezan examina aspectos da religião (Pessach, estrela de David), das artes (Mozart), e das ciências (novos conceitos e teorias). Os artigos mostram como o novo pode surgir quando um elemento já existente é retirado de seu contexto original e inserido noutro diferente, o que produz efeitos até então inexistentes.

O terceiro reúne ensaios curtos e reflexões sobre a prática analítica, o poder, a educação, a violência, a psicologia das massas. Escrito com a clareza e a inteligência familiares aos que acompanham sua produção, esta nova coletânea de Mezan nos ajuda a compreender o papel do inconsciente nos desvãos da psicopatologia social.

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, COLUNISTA DO CADERNO 2, AUTOR DE VISITA ÀS CASAS DE FREUD E OUTRAS VIAGENS (EDITORA CASA DO PSICÓLOGO) ENTRE OUTROS

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