Rogério Ortiz/Divulgação
Rogério Ortiz/Divulgação

O corpo, campo de batalha

Os Sertões, de Euclides da Cunha, inspira Matadouro, que discute a questão[br]da identidade

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

O que se mata no Matadouro que Marcelo Evelin/Demolition Inc. + Núcleo do Dirceu apresentaram na Mostra Sesc de Artes? Várias hipóteses podem ser formuladas, mas vamos tratar aqui somente de duas delas: 1) foram aniquilados os cacoetes que vêm povoando boa parte da dança contemporânea, tipo a rarefação de movimento ou os gestos tarefeiros - aqueles que tratam a aproximação da arte com o cotidiano como um catecismo; e 2) foram banidos os entendimentos de figurino que vinham se tornando típicos e que, quase sempre, se restringiam às roupinhas do dia a dia ou à nudez.

A maior parte do tempo, os oito intérpretes estão, ao mesmo tempo, nus e vestidos por um figurino. Ao mesmo tempo.

Eles entram como quem acaba de chegar da rua, formam uma fileira ao fundo do palco, deixam lá, no chão, as suas roupas e, então, revelam o figurino que os transforma em cangaceiros, índios, brincantes, um bloco de sujos do carnaval de rua, jagunços. Nus, mas de tênis, máscaras e adereços que nos transportam para a terceira parte (A Luta) do livro que inspira essa obra, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Matadouro fecha a trilogia composta por Sertão (2003), a partir da primeira parte do livro, A Terra, e por Bull Dancing (2006), que se debruçou sobre a segunda, O Homem.

Tensão. Matadouro começa e acaba com a mesma formação: uma fileira de corpos que lembra um paredão. Mas a tensão, entre um momento e o outro, é inteiramente distinta. Passaram-se 50 minutos, durante os quais os oito intérpretes simplesmente correram pelo palco. Simplesmente? Não, porque essa corrida tem a força de uma metáfora poderosa: a da resistência, mas de um tipo especial de resistência, que não é a de resistir contra, mas resistir a favor. A favor de poder continuar resistindo. Talvez por isso, seja tão perturbadora.

Um pouco dessa tensão que vai sendo lentamente construída pela corrida se faz presente também nas misturas entre o sinfônico, o percussivo e o trivial (um latido de cachorro) da sua trilha sonora.

A tensão dessa resistência por alguma coisa que torna Matadouro uma das mais importantes obras de 2010.

Ela aproxima os modos de existir de João Abade, Pajeú, João Grande, Vila Nova, Chico Taramela, Macambira e Beatinho - personagens de Euclides - dos corpos que o filósofo Giorgio Agamben chama de "mortos-vivos" no seu livro O Que Restou de Auschwitz, e dos corpos dos sem-teto que nosso olhar desinteressado transforma em paisagem.

Mas esse Matadouro nos faz pensar sobretudo naquilo que ele não mata. Assim como o sertão, para Euclides, é "o fundo recém-sublevado de um mar extinto", e o homem, "um terrível fazedor de desertos", a luta, que aqui toma a forma da resistência, passa a representar o mesmo que os romanos fizeram em Cartago: torna-se um açude capaz de aumentar a evaporação e, então, produzir chuvas. E nos acorda para o mais sério que se tem a zelar, nos tempos em que estamos: a solidariedade e o afeto.

Continuar fazendo. Quando, a certa altura, um corpo suado e exausto sai da fila da corrida para tocar e abraçar o outro, está nos dizendo que é isso que o faz voltar para a fila para continuar a correr. Um "nós" sustentando o "cada um". Porque não é em outro lugar senão no coletivo que se potencializa o que nos cabe, que é compreender que se precisa fazer somente para poder continuar fazendo.

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