O corpo burilado pelo convívio social

Cia. Lia Rodrigues completa 20 anos de contribuição preciosa

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

São 20 anos de um percurso bastante singular, que começa em 1990, na cidade do Rio de Janeiro, e vai ser construído com o comprometimento de fazer da dança uma arte capaz de colaborar com o desenvolvimento da sociedade. Desde o seu início, a Lia Rodrigues Cia. de Danças vem delineando um perfil bem próprio: aposta que a reflexão tem capacidade transformadora, e burila as obras que cria com essa proposta.

No seu a(r)tivismo, investe também na educação continuada das novas gerações, trabalhando para que possam conhecer o mundo artístico que as precedeu. Para isso, mantém em repertório quatro das nove obras já encenadas pela companhia. Como se vê, são poucas criações (nove em 20 anos), sobretudo quando se leva em conta a hemorragia de produções que parece inestancável nos tempos de agora.

Desde sempre, o seu modo de atuar vem desenhando um perfil singular para a companhia, e a lista do que vem formando essa especificidade é grande. Um exemplo recente, que vale a pena comentar, é de 2003, quando Lia transferiu, a convite do Ceasm (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), o endereço da sua companhia para o bairro do Timbau, no Complexo da Maré, que reúne 15 outras comunidades, somando cerca de 132 mil habitantes.

Esta foi a sua resposta para realizar de modo inteiramente distinto daquele que a maioria vinha adotando para atender a exigência de "contrapartida social" que os editais então exigiam. Como se sabe, por anos a fio, os editais ataram equivocadamente a concessão de financiamento da produção das companhias artísticas via Leis de Incentivo à Cultura à realização do que nomeavam de "contrapartida social" - que foi entendida como realização de alguma atividade com os "excluídos".

Complexo da Maré. A hipótese que impulsionou a sua ação era a de que se tornava muito necessário inventar outras maneiras para que o artista da dança viesse a se relacionar com uma população com a qual não tinha contato de uma forma mais efetiva. Evidentemente, o convívio diário em um ambiente como o Complexo da Maré, muito distanciado do modo de existir dos bairros da zona sul carioca, onde se agrupa a maior parte dos envolvidos com a dança profissional no Rio de Janeiro, modificou não apenas o entorno, mas sobretudo o tipo de coreografia que passou a ser produzida.

A diferença entre Aquilo de Que Somos Feitos (2000), que trabalha a violência com metáforas que mantêm uma certa distância das situações que indicam, e Encarnado (2005), está justamente no encurtamento dessa distância. O ambiente do dia a dia na favela foi sendo "encorpado" em representações cada vez mais cruas. Pororoca (2010), por enquanto, é o ápice do tipo de trocas entre corpo e ambiente que não parou de acontecer: nessa criação, é o modo próprio de existir na Maré que se instaura, um jeito de viver junto que começa na arquitetura, na estreiteza das ruas, nos amontoados de "puxadinhos".

Turnê. Além dessas três criações, também Formas Breves (2002) faz parte do atual repertório da companhia. O comprometimento em continuar a apresentar suas criações permanentemente, colabora para que a tirania do comportamento consumista perca a sua atual soberania. O seu 20.º aniversário começou a ser comemorado com uma turnê, a convite do Sesc-SP, dançando essas quatro produções na capital e em Santos, Sorocaba, Santo André, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Araraquara.

A contribuição da companhia, nessas duas décadas, foi se tornando cada vez mais preciosa. Ao longo desses 20 anos, foi sendo construído um "jeito Lia Rodrigues" de trabalhar com a dança. Sua ligação com o que acontece ao redor sempre a leva a produzir reflexão com a sua dança.

Seja a situação da maternidade em Ma (1993), seja o Brasil de Mário de Andrade (nas duas versões de Folia, em 1996 e 1997), seja Pororoca, a sua mais recente contribuição. O percurso de Lia Rodrigues é daqueles poucos que nos fazem continuar apostando na dança como um potente estímulo para a emancipação de todos os que com ela se relacionam.

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