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O córner e o escanteio

Grudado na TV durante os 90 minutos de uma partida. Nem eu me reconheço

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 02h00

Faltando poucas horas - menos de 6 - para o Brasil e México, lá na Rússia, e sendo eu quem sou, chega a ser uma imprudência me sentar para escrever sobre futebol. Mas também um cronista precisa às vezes cumprir tabela. Confesso a você que o assunto aqui era outro, os 90 anos da publicação do poema No Meio do Caminho, de Drummond, que tanto escândalo provocou. Vai ficar para a próxima, se não me surrupiarem o tema, pois sucede que hoje madruguei mais prosa que poesia.

Imprudência, sim, da parte de quem, de tão ignorante em matéria futebolística, seria incapaz de distinguir um córner de um escanteio. Foi o que confessei certa vez por escrito, e tive o dissabor de constatar que nem mesmo a tentativa de gracejo funcionou, pois mais de uma pessoa se apressou em explicar que córner e escanteio vêm a ser a mesma coisa. Talvez não devesse me meter nessa seara, eu que nunca fui capaz de um bom chute, talvez nem mesmo no sentido figurado da palavra.

Quando menino, na fazenda, num campinho onde meu pai plantou um par de traves, jamais cheguei aos pés, já nem digo dos outros meninos, mas da prima Lolô, eficiente zagueira, e muito menos da prima Sílvia, memorável cabeceadora. Como tantos garotos pernas de pau, acabei condenado a ser goleiro, e nem ali me destaquei - a não ser pelos frangos que papei quando, no Colégio Estadual, alguém teve a temeridade de me confiar o arco da 1.ª série D.

Fracasso nos gramados, decidi meter as mãos pelos pés, isto é, fui tentar a sorte na quadra de basquete, disposto a reprisar ali, com meu metro e 73, as façanhas que meu pai (haja terapia na idade madura!), quase 10 centímetros mais alto, inscreveu na história do Minas Tênis Clube, a maior delas tendo sido uma cesta feita de um garrafão a outro, arrebatando a segundos do final um título que o América já considerava no papo. As tais “werneckadas” de que décadas mais tarde me falaria Fernando Sabino, ex-recordista de natação pelo mesmo clube, que deixou a piscina para mergulhar, com igual sucesso, na literatura. Mesmo sem títulos e medalhas, foi uma transição assim o que busquei fazer aos 17 anos, ao abandonar as quadras no dia em que publiquei o meu primeiro texto, para vir a ser, conforme já admiti, um escritor à minha altura, ou seja, 1,73 metro, medida que o tempo vem se encarregando de encurtar ainda mais.

Mas voltemos ao futebol, departamento sentimental em que a minha escolha, vitalícia, foi selada aos 7 anos, quando meu pai me levou pela primeira vez a um estádio, para ver Cruzeiro e América. “Você torce para o time que quiser”, alertou ele, “mas esse aí faz 7 anos que não ganha um campeonato.” Não importa. Com aquela camisa azul, pensei, que diferença fariam uns troféus a menos? E, que nem Jacó, gramei mais 7 anos até ver campeão o time que me ganhara pela beleza do uniforme.

Nas pegadas do velho Hugo, achei que tinha a obrigação ritual de iniciar meu filho na paixão futebolística. Aquela história: “Quem me levou a um estádio pela primeira vez foi meu falecido pai...”. Decidi fazê-lo em vida, e, numas férias em Belo Horizonte, fui com ele ver um Cruzeiro e Atlético.

O que para meu filho pode ter sido uma chatice, foi para mim uma experiência pedagógica: “Não vai passar de novo?”, perguntou ele quando o Cruzeiro fez um gol. É isto!, descobri então, instantaneamente convertido ao gosto pelos “melhores momentos”, sejam de que natureza forem. Por mim, uma partida de futebol deveria vir desossada, sem cera nem embromação, de modo a que à mesa do torcedor chegasse apenas o filé.

Se disso não duvido, confesso com um pouco de vergonha nunca ter voltado a um estádio desde aquela tarde. Minto: estando em Barcelona em 2002, deixei-me arrastar por amigos para ver um Brasil e Catalunha. Inesquecível noitada no Camp Nou repleto. Só não me pergunte quanto foi o jogo.

Pode ser que o tempo esteja conferindo flexibilidade a quem, um dia, considerou a possibilidade de não torcer pelo Brasil numa Copa do Mundo, a de 1974. Vivendo em Paris, cheguei a participar de uma assembleia de compatriotas em que se discutiu, a sério, horas a fio - e em francês, mon Dieu, pois o debate atraíra gente de outros idiomas - se torcer pela nossa Seleção não seria engrossar o caldo do ditador Geisel. Eu deveria corar retroativamente, mas acho é graça ao me lembrar de que ao cabo de muita conversa prevaleceu a palavra de ordem liberal de deixar a cada um a grave decisão cívico-ludopédica de torcer ou não pelos pupilos do Zagallo. Mais do que nós, sofreu apenas o idioma francês.

De fato, ando mudado. Dias atrás, nos intervalos do VII Fliaraxá, impecavelmente organizado pelo Afonso Borges, assisti a duas partidas - inteiras! - da Copa na Rússia, e olha que nem cerveja rolava. Uma delas, vi ao lado do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos. Viemos ontem de Araxá, e imagino que ele, já de volta a Barcelona, onde vive, estará se preparando para ver o embate de nossas seleções. Quanto a mim, aqui estarei, daqui a pouco, preparado até para o melhor, grudado na televisão, do primeiro ao último minuto. Duvida? Remeto você ao título do novo romance do Juan Pablo: Ninguém Precisa Acreditar em Mim.

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