O Coringa está em toda parte

Vamos ao cinema em busca de ilusões. Só que, de repente, sai da tela a realidade, como uma pavorosa 'rosa púrpura de sangue'!

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h11

"Armas na mão e balas nas cabeças" foi o slogan dessa noite terrível. Como se o assassino dissesse: "Eu não sou vocês; eu sou eles! Eu sou o Coringa".

Esse cara é louco de pedra, sem dúvida; mas, quem dá conteúdo à sua loucura? É óbvio que são as cenas de morte cruelmente sofisticadas e sádicas do cinema americano, as mesmas dos filmes-catástrofe, os 'Godzillas' que inspiraram o 11 de Setembro do Osama. Sempre me espantei com o prazer que tem o cinema americano de destruir Nova York; mesmo depois do Osama, continuam a destruir a cidade. Por que isso? Tirando as comédias românticas ridículas e os desenhos animados, só se vê morte nos filmes. E não é a violência literal que provoca esses assassinatos. Não; é justamente a tranquilidade com que a violência é exibida, a displicência com que fuzilamentos e punhaladas se transformaram em um bailado ritual quase erótico. A violência ficou fria, 'deliciosa' de ver.

E quem fornece as armas? Ora, é óbvio que é o comércio incontrolável de máquinas mortíferas, que ninguém consegue coibir. São 200 milhões de armas legalizadas na América. Assim:

"Boa tarde... eu queria uma metralhadora israelense, um Kalashnicov bacana, talvez o AK47, e aquela granadinha ali... por favor"... "Tudo bem, aqui está - quer mais munição?"

E, assim, o "cavaleiro das trevas ressurgiu", o homem morcego se vingou de seus antigos protegidos. É claro que não são as cenas pontuais de sangue que influenciam os loucos, mas a violência implícita no país, direito constitucional de pistoleiros e caubóis. Eu já morei lá, ia a uma escola como Columbine e vi de perto a cultura da porrada.

Ele quis massacrar nosso mundo de voyeurs. Ele quis mais, além de "olhar". Ele quis "ser". Quis que participássemos do filme de ação, queria partilhar conosco a loucura humana, num ato que mostra que a saúde, a razão moral, a compaixão são partes de um intrincado painel de delírios, uma pequena ilha num arquipélago de insanidades, quis mostrar que o 'humano' é definido por nossa agressividade milenar. É incrível que muita gente negue a influência do cinema nos assassinatos (sem contar o cotidiano guerreiro dos homens-bomba, dos genocídios nos países pobres e da crueldade dos ricos). No cinema, já estamos tão acostumados com o massacre colorido, que nem percebemos o absurdo. Quando o Código Hays da terrível censura careta dos anos 30 foi extinto em Hollywood, a sexualidade continuou ausente dos filmes. Só floresceu a brutalidade total, o substitutivo puritano para o sexo.

Por que ele matou espectadores e não compradores de supermercado? Por que matou os que sonhavam no escuro? Queria experimentar o inominável, o crime impensável? Queria outro tipo de cinema? Ele foi um documentarista. Foi contra a ficção - queria um "cinema-verdade". Poderia ter atirado na tela, matando o filme. Mas atirou nos passivos voyeurs da crueldade alheia. É como se dissesse: "Não se brinca com a morte, nem Batman nem ninguém nos livra da morte com catarses purificadoras, pois um dia ela chega". Um dia, o Coringa chega, pois ele está em toda parte. É só ligar a TV e olhar a Síria; Assad é um Coringa, Putin, também. Todo louco tem fome de realidade e, nisso, a morte tem uma grande serventia: ela é brutamente palpável, concreta, nega todo discurso.

Ele não se suicidou, como tantos. Não. Creio que ele, mesmo louco, queria aparecer, ser preso mesmo. No crime americano, o assassino quer ser reconhecido como sujeito. Lembro-me do garoto de In Cold Blood (A Sangue Frio), de Truman Capote, que tinha pronto um discurso para o dia em que ganhasse o Oscar; um discurso modesto, emocionado, que ele ensaiava diante do espelho.

Fiquei mesmo fascinado com as armadilhas que ele deixou no apartamento para a polícia; ele estava montando um filme em que ele era o roteirista e protagonista.

Talvez sua mensagem seja de que nada se explica, que não valemos nada, que nem no escuro, comendo pipocas, estamos a salvo.

Ele queria provar que o neocrime não é mais o contrário do Bem. Como um Mallarmé (Le Mal-Armé - perdão, lacanianos!...), ele ensinou que nosso pobre "jogo de dados não vai abolir o Acaso jamais"; um acaso sangrento pode surgir e nossa morte não é mais sagrada.

Os jornais perguntam sem parar: por quê? Mas toda semana há uma chacina nas periferias e ninguém pergunta nada. E tanto ele quanto aquele Matheus que fuzilou no cinema em São Paulo, durante o Clube da Luta, queriam silenciar os discursos do "bem" e do "mal". Queriam ir além deste velho maniqueísmo. Como disse um menino da Febem que decapitou um colega: "Desci o machado na garganta dele e, aí, já era!..." Ou seja, não houve nada; apenas uma decapitação. Para o assassino não houve nada no cinema; apenas um filme mais realista e violento. Esse neocrime é uma terceira coisa: é o mal banal. Chama-se de "mal" por falta de outro nome. É o crime do novo milênio, prefigurando a frieza dos extermínios que virão. Esses criminosos contemporâneos falam uma verdade que teimamos em ignorar em nosso humanismo fracassado: a tragédia quente está superada, está out; só nos resta a tragédia fria, como uma 'solução final' que não emociona mais. No mundo bárbaro e tecnizado há centenas de milhões de mortos-vivos pela fome. Os extermínios vão virar uma prática social, para regular o mercado de excedentes. Em vez de queimar produtos, queimarão consumidores. O fim da tragédia já aconteceu. A sobrevivência moderna precisa do crime. Contemplamos a miséria cotidiana com a mesma frieza com que o cara fez sua rosa de sangue. Esse louco sorridente queria mesmo nos chocar, nos acordar de um sono frio.

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