O cordel da Áustria

Experimental de Repertório interpreta ciclo de canções de Gustav Mahler

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2010 | 00h00

Jamil Maluf. “Há diálogo entre o cancioneiro e o corpo sinfônico de Mahler, inclusive com o reaproveitamento de melodias”  

 

Regente de sucesso em sua época, Gustav Mahler (1860-1911) esteve longe de ser unanimidade como compositor entre seus contemporâneos. Para alguns, salvavam-se apenas suas canções; para outros, algumas de suas sinfonias. Um século depois, a visão mudou, aproximando os gêneros em uma compreensão mais cuidadosa da música do austríaco. "Há todo um diálogo entre o cancioneiro e o corpo sinfônico de Mahler, inclusive com o reaproveitamento de melodias", diz o maestro Jamil Maluf que, à frente da Experimental de Repertório, interpreta no domingo o ciclo Des Knaben Wunderhorn e a Sinfonia n.º 1 do compositor.

"Essas canções têm importância muito especial para Mahler", diz Maluf. O título vem de uma coletânea de poesia popular alemã, lançada no início do século 19. "É como se fossem o cordel da Áustria", explica o maestro. Vários compositores - entre eles Brahms e Mendelssohn - escreveram obras a partir destes textos, mas Mahler tinha com eles uma relação que remetia à sua própria concepção de arte e música. "Eles são essencialmente diferentes de qualquer tipo de literatura, poesia, são mais natureza e vida - ou seja, a fonte de toda poesia - do que arte", escreveu.

"O que impressiona na música que ele escreveu é a maneira como ele traduz a ironia e o humor que a poesia tem. Há um tom quase de sátira em alguns momentos", diz Maluf. E se, em sua visão, há um diálogo entre o Mahler sinfonista e o autor de canções, entra também na dança o Mahler maestro.

"Hoje, durante o ensaio, estávamos conversando sobre isso. É curioso que Mahler nunca tenha escrito uma ópera. Além do conhecimento incrível que tinha da voz, ele sabe como poucos criar atmosferas, ambientes musicais. E aí vale a pena lembrar que, como regente, ele foi um grande intérprete do repertório operístico."

Detalhes. "Há inúmeras sutilezas na orquestração dessas canções. E isso exige da orquestra e dos solistas, o barítono Leonardo Neiva e a meio-soprano Denise de Freitas, um trabalho de interpretação cuidadoso, atento a um fraseado sofisticado. O próprio Mahler costumava dizer que o ciclo marcava um momento raro de sua carreira, um momento camerístico, que busca a sofisticação da música de câmara", afirma Maluf.

Para o maestro, a presença da Sinfonia n.º 1 completa bem o programa por ser exemplo do diálogo entre canções e sinfonias, uma vez que Mahler utiliza nela melodias de alguns de seus ciclos. "Para a Experimental de Repertório, Mahler sempre foi um autor importante. Nos últimos anos, temos nos dedicado à interpretação de suas sinfonias, como a Quarta, a Quinta e a própria Primeira, ou mesmo de algumas de suas canções", complementa.

ORQUESTRA EXPERIMENTAL DE REPERTÓRIO

Teatro Bradesco (1.457 lugares). Rua Turiaçu, 2.100, Bourbon Shopping Pompeia, 3670-4100. Domingo, às 11 horas. R$ 30

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