O coração das coisas

Antes de ser destrinçado e dissecado pela medicina, ele era tratado com mais poesia

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 02h00

O músculo cardíaco é uma parte importante do corpo humano, como todos sabemos. Em harmonia e de forma tranquila, ele terá executado um trabalho enorme ao longo de toda uma vida. Batendo entre 60 e 100 vezes por minuto nos adultos, pulsa ainda mais rápido nas crianças. Como máquina, é admirável, se você supuser como ele funciona por uns 80 anos sem grandes manutenções. Como aparelho, o que mais existe na sua casa que tenha essa longevidade e eficácia? 

O primeiro transplante cardíaco foi realizado pelo cirurgião sul-africano Christiaan Barnard, em 3 de dezembro de 1967. O paciente faleceu pouco depois. Um coração humano havia pulsado no peito de outra pessoa: foi uma revolução. Hoje, nossas tecnologias são um pouco menos invasivas e mais eficazes. Como parte do homem ciborgue previsto por Yuval Harari no livro Homo Deus, estamos perto de uma completa automação tecnológica do “motor da vida”.

Antes de ser destrinçado e dissecado pela medicina, o coração era tratado com mais poesia. Sede da memória, saber algo de cor (par coeur em francês, by heart em inglês, com ligeira alteração de preposição) era saber de coração, forma automática de memória. Anunciar que o conhecimento está “de cor e salteado” é orgulhar-se do perfeito domínio do tema. A aliança do dedo anelar faz parte de uma crença antiga de que ali existiria um longo vaso sanguíneo que levaria direto ao coração, trazendo o casamento sempre à memória. “Ouça mais seu coração do que seu cérebro” implica afirmar que a sinceridade, pelo menos metaforicamente, estaria nos afetos em detrimento da razão. Curioso é que afetos e razão são processados dentro da mesma caixa craniana, porém a ideia permanece.

Santo Agostinho era representado com um coração na mão, tradição que pode ter nascido das suas frases mais apaixonadas nas Confissões: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova... Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava...”. Esse arrebatamento inspirou o pintor Philippe de Champaigne, no século 17, a retratar o santo com um coração em chamas na mão esquerda e uma pena na direita. Progredia a estilização do músculo cardíaco. 

No mesmo século do pintor de Agostinho, houve o ciclo de visões de Santa Margarida Maria Alacoque. A freira viu a imagem do Sagrado Coração de Jesus repetidas vezes. O Mestre pedia que ela divulgasse a devoção e elaborou as 12 promessas que seriam concedidas ao fiel que fosse à missa e comungasse em nove sextas-feiras iniciais do mês. Entre as promessas estão a paz para as famílias, aumento da fé, sucesso nos empreendimentos e, por fim, a principal: a graça da salvação eterna. 

Instigado pelas ideias da freira alemã Maria do Divino Coração (que viria a morrer em Portugal, em 1899), o papa Leão XIII consagrou o mundo inteiro ao Sagrado Coração de Jesus. Os fiéis do Brasil cantaram ao longo do século 20 o hino “Coração Santo, Tu Reinarás, Tu, nosso encanto, sempre serás”. Em 1931, ao ser inaugurada a estátua do Cristo Redentor na capital da República, poucos brasileiros notaram que há uma dupla mensagem: os braços abertos para receber e redimir todos e um coração no centro do peito para amar a claudicante humanidade. Junho é o mês do Sagrado Coração de Jesus.

A devoção ao coração de Jesus foi acrescida com a similar inclinação piedosa ao Imaculado Coração de Maria. Nossa Senhora das Dores já era representada com sete espadas no coração, significando os pesares da mãe do Messias. A profecia de Simeão, a perda de Jesus no Templo ou contemplar o Filho na Cruz eram exemplo das adagas lancinantes que Maria enfrentou. O Imaculado Coração de Maria tem rosas em geral, como o Coração de Jesus é representado sangrando, flamejante e rodeado de espinhos. A devoção aumentou muito a partir das aparições de Fátima, por pedido expresso da Virgem aos pastorinhos. 

Dos altares para as vitrinas, o símbolo triunfou. Em ouro ou diamantes, joias cordiformes vendem com facilidade. Apaixonados representados em quadrinhos suspiram em corações. O emoji de mesmo formato (com muitas variações) é utilizado diariamente. Fazer o símbolo com as duas mãos e os polegares para baixo traduz um gesto amoroso e, reconheçamos, ligeiramente cafona. O coração é um sucesso de público nos altares, no WhatsApp e nos quadrinhos. Apesar de quase todos os órgãos humanos serem vitais, fígado, cérebro ou intestino grosso nunca receberam a mínima parcela de estilização artística ou poética. Nunca houve a expressão “entregue-me seu pulmão” porque desejo estar com você para sempre. Jamais! A metáfora cardíaca, sacra ou profana, sempre é vitoriosa e eclipsa todos os outros itens corporais. 

No sermão da Montanha, síntese do Cristianismo, Jesus indica que, onde estiver o tesouro de alguém, ali estará seu coração (Mt 6,21). Trata-se de grande meta de conhecimento de si: aquilo que move meus afetos, o que emociona cada fibra do meu ser, o que desperta risos ou lágrimas sinceras é o valor central da minha existência, o resto é adereço. Nesse sentido, siga seu coração como metáfora e cuide dele como biologia. Creio residir no duplo cuidado o segredo de uma vida longa e tranquila. Bom domingo para todos os nossos corações e nossos tesouros mais preciosos. 

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