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O Controle

Controlar a opinião pública já era importante na Roma Republicana

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 03h00

Revolucionários antigos, do século 19 e início do 20, acreditavam na tomada do poder pela força, com uso explícito de violência. Teóricos como Marx e homens de ação como Lênin pensaram assim. Depois da Grande Guerra, houve mudança na concepção. Sim, o espírito de Lênin ainda podia inspirar movimentos armados como o chinês, porém, um sardo concebeu uma virada. Antônio Gramsci (1891-1937) desenvolveu o conceito de hegemonia cultural. 

O controle de um grupo sobre outro raramente ocorria apenas por coerção e violência. Era necessário um consenso de quem era dominado. Só existiria uma hegemonia se ela pudesse lançar mão de recursos culturais que legitimassem o poder. Sim, no marxismo clássico existe a noção de ideologia como aquilo que vela a dominação. Gramsci aprofunda o tema. Intelectuais comprometidos com um ideal revolucionário deveriam fazer, em parte, o que já era feito na sociedade tradicional. O controle da universidade, da imprensa, do debate com o público ocorreria com o objetivo de atingir hegemonia cultural e que esta levaria a uma transformação do capitalismo para o socialismo. Influenciados por ideias similares, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer escreveram sobre “Indústria Cultural” e afirmaram: “A produção capitalista os mantém tão bem presos em corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles”.

Para ser simples, reduzi coisas complexas a descrições gerais. Gramsci deu um papel ao intelectual “orgânico” maior do que Marx imaginara. Preso pelo Fascismo Italiano e escrevendo seus Cadernos do Cárcere, ele pensou e desenvolveu uma estratégia de tomar o poder.

Nos últimos anos, desenvolveu-se uma quase acusação conservadora contra todos os intelectuais de esquerda: gramscianos. Toda pessoa que escrevesse contra o ponto de vista conservador, seria um adepto da estratégia de hegemonia cultural. Como acontece com a obra de Nietzsche e de Freud, há mais gente falando sobre o italiano do que lendo seus textos.

O mundo do século 21 é o das redes sociais. Controlar a opinião pública já era importante na Roma Republicana. Hoje, é central em qualquer projeto político. Assim, o pensamento gramsciano foi e é seguido por muitos ativistas culturais de esquerda. O curioso e que já indiquei em crônicas anteriores é que despontam os “gramscianos de direita”. São também, em certo sentido, “intelectuais orgânicos” no sentido de se sentirem incumbidos de uma missão, como seus adversários. A consciência da ação revolucionária implica, para gramscianos destros e sinistros, a ideia de que é mais importante controlar um diretório acadêmico ou um jornal do que armas no sentido literal. Todo “gabinete de ódio” é uma estratégia na luta pela opinião pública e pela militância de frases, destruição de reputações, deformação de ideias, etc. Está fora de moda fazer greves como os caminhoneiros no Chile contra o presidente Allende ou os metalúrgicos de SP contra a ditadura militar. Sim, querida leitora e estimado leitor: há greves e lockouts de direita. Porém, piquetes em porta de fábrica parecem antigos. Ainda que odiando o nome e o conteúdo, grande parte do sucesso da direita atual veio de uma estratégia gramsciana. Curiosamente, alguns retrocessos de táticas da esquerda no Brasil também nascem de diminuição da influência de... Gramsci.

Vamos ver um pouco de passado recente. A crítica ao regime militar fez surgir o livro Brasil: Nunca Mais, um chocante relato de torturas a partir de inquéritos militares. O livro tinha capa vermelha. Com o mesmo tipo gráfico só que com capa verde e amarela, surgiu o texto Brasil Sempre, de Marco Pollo Giordani. Era uma resposta conservadora reafirmando os riscos da esquerda e o caráter “libertador” do movimento de 1964. Logo após a ditadura civil-militar, de 1985 até 1988, a opinião pública estava mais para Brasil Nunca Mais do que seu oposto. Do ponto de vista gramsciano, a defesa de 1964 estava limitada a círculos pequenos.

A luta era mundial. Terminada a Guerra Fria na Europa, pesquisadores franceses organizaram (1997) O Livro Negro do Comunismo. O objetivo era levantar o número de mortos dos movimentos ligados ao socialismo e ao comunismo. O livro fez sucesso entre conservadores, especialmente em países que tinham saído do controle soviético nos anos anteriores. Voltamos a Gramsci. A esquerda reagiu ao livro-denúncia com... outro livro negro: o do capitalismo. A obra analisava os interesses de nações capitalistas e da ação de interesses financeiros nas mortes e na fome do mundo. Curioso que os dois livros descrevem (em textos de qualidade não uniforme) fatos reais de massacres feitos por capitalistas e comunistas. Alguns capítulos são bem documentados e plausíveis. Porém, em vez de lamentar a morte e violência em si feita por interesses de partidos, Estados ou empresas, ambos fazem crer que o problema é a ideologia. Penso na violência extrema de Mao fazendo campos de concentração de fazer corar um nazista. Penso na violência extrema dos EUA ao jogar napalm sobre uma aldeia ou no massacre de My Lai, em 1968. Os soldados norte-americanos que mataram 182 mulheres (17 delas grávidas) e 173 crianças de forma cruel não são, para mim, assassinos capitalistas; são assassinos apenas. Muitos militantes de esquerda fizeram a denúncia justa e merecida contra o caráter hediondo dos episódios do Vietnã. Era um crime! Curiosamente, algumas centenas de quilômetros para o norte ocorria a Revolução Cultural Chinesa, com milhões de mortos, algo não denunciado pela maioria dos mesmos militantes. O que está em jogo para os gramscianos de esquerda e de direita não é a vida humana, porém o controle da opinião pública. Se o meu lado mata e tortura, é algo “justificável”. Se o outro lado mata e tortura, é uma monstruosidade. Pior, quando os dois lados são notórios assassinos, tratam apenas de discutir quem matou mais. Esse é o argumento par excellence da imbecilidade. Morreram dez milhões de chineses na Segunda Guerra. Isso não quer dizer que os capitalistas japoneses são benignos e os stalinistas de esquerda que mataram o dobro durante o regime bolchevique sejam os malvados de verdade. Ambos são assassinos. Entre 1904 e 1908, pelo menos 80 mil negros (etnias herero e nama) da atual Namíbia foram assassinados por alemães. Os criminosos do Segundo Reich seriam mais benignos do que os do Terceiro Reich? Imagine um negro do Congo Belga do século 19, tendo suas mãos amputadas e ouvindo do seu carrasco belga, capitalista e católico: “Vou cortar suas mãos, mas fique feliz, os comunistas farão coisas piores no futuro”. Seria um consolo fraco. Para cada vítima importa apenas o que seus assassinos e torturadores fazem naquele instante. O terror assírio na Antiguidade não é bom argumento para alguém sendo executado no “paredón” da ditadura de Fidel Castro. É preciso ter esperança e raramente ela está nos radicais.

 

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