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O conforto da crença

A mais sólida castidade pode ser vista como uma obsessão lasciva

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2018 | 02h00

Admiro quem tenha certeza de alguma coisa. Exemplo? Na minha convivência longa na Igreja Católica, ouvi de fiéis a certeza feliz de que pertenciam ao grupo religioso mais correto. Uma freira me disse que tinha uma pena genuína dos luteranos que jamais tocariam a verdade ou nunca teriam direito à salvação. Parecia o princípio antigo que vai de São Cipriano de Cartago até o papa Bonifácio VIII: “Fora da Igreja não existe salvação” (extra ecclesiam nulla salus). 

Admiro a convicção, apesar de certo incômodo com ela. O ser que não conhece perspectiva ou relativismo é, aparentemente, mais feliz. Um dono de restaurante em Bolonha me disse, há muitos anos, que a comida da Emília Romana era a melhor da Itália e que todo o mundo reconhecia isso. Descobri que cada restaurante das outras regiões repetia o princípio, mudando apenas um detalhe na frase: Calábria, Piemonte, Vêneto, etc. Haveria dúvida na voz da mãe que diz que seus filhos são os mais bonitos do mundo? Ela conseguiria desenvolver a ideia: são belos para mim que os amo, porém, poderiam ser feios aos olhos de outras pessoas? 

Meu grande Dostoievski dizia, nos Irmãos Karamazov, que gostamos de trocar o voo livre pelas certezas contidas em gaiolas. A convicção plena não encontra boa acolhida na Filosofia. O pensar filosófico é filho da dúvida metódica clara e bem dirigida. Estudiosos da metodologia científica, como Wolfgang Stegmüller (1923-1991), chegam a sugerir que a própria noção de verdade é objeto da Teologia, nunca do pensamento racional e metódico da ciência. Em muitos autores, existe um tom irônico sobre a certeza absoluta.

A entrega a uma convicção desse porte parece ser um recurso eficaz contra a agrura da dúvida. O relativismo incomoda muita gente. As convicções, especialmente as bipolares, constituem uma zona de conforto extraordinária. O exame profundo e psicanalítico costuma derreter monólitos de basalto, convertidos pela dúvida em icebergs minguantes à deriva. Lembro-me de ter conversado com uma amiga que anunciava, orgulhosa, a dedicação total a sua mãe na doença derradeira. Sim, todos os fatos indicavam um traço de amor irreprochável. Comentei, de leve, que ela deveria explorar a hipótese de sentir uma culpa enorme ou uma raiva denegada pela mãe, fatos que justificariam tanto empenho. Nossa amizade não progrediu muito depois daquela conversa. Para mim, quase tudo contém seu contrário. A mais sólida castidade pode ser vista como uma obsessão lasciva. A calma sobranceira de alguns parece máscara forte para um vulcão interno sempre contido. Temos a sombra em nós e isso não é demérito, apenas o humano do qual ninguém escapa. Não existe pureza total, apenas inconsciência.

Quando trabalho o relativismo de algo, costumo ouvir na internet a acusação: sofista! Quando estou tomado por paciência celeste, pergunto se a pessoa explorou o que nos sobrou das obras de Protágoras ou se prefere excertos de Górgias para chegar a tal classificação. São textos complexos e sempre desejo saber do acusador seu lastro de conhecimento sobre os sofistas. Quase sempre os nomes dos filósofos e das suas ideias são ignorados, pois a pessoa, que pouco ou nada leu, tem a certeza de que “sofista” é um insulto. Desconstruir um argumento pelas contradições reveladas da própria pessoa nas respostas é uma parte do método socrático, que, aliás, era crítico dos sofistas. Há muita gente que insulta e poucos que enfrentam o lento progresso da leitura e do raciocínio. 

Entendo a reação de muitos ao relativismo ou, pelo menos, a observar rachaduras no edifício da certeza. As convicções foram edificadas exatamente para defesa e não para a busca de um pensamento mais denso. É contra o pensamento científico que as afirmações enfáticas crescem. Complexo entender a definição de Einstein sobre o que seja ciência: o estado atual dos nossos erros. A dúvida incomoda muito e, não obstante, dela nasce quase toda transformação científica ou de valores. 

Onde termina qualquer relativismo? Tenho repetido há décadas: termina nos valores básicos da convivência dentro da lei e da ética. Exemplo: racismo, pedofilia, misoginia e homofobia não podem ser relativizados. Nunca poderei afirmar: “Fulano é pedófilo, mas é o jeito dele e temos de respeitar”. Estamos falando de crimes, de falta de inteligência e demonstração de incapacidade social. A pessoa que exclui outra da dignidade humana, do respeito e da diversidade como valor pode ser interpretada pela psiquiatria, nunca relativizada pelas ciências humanas. Posso tentar explicar, jamais relativizar. 

O convicto escapa de tudo. Na Terra e no Céu, as certezas embalam seu sono dogmático e acalentam a vaidade travestida de investigação. A certeza cumpre o papel desejado e deita raízes sobre o solo dando referências eternas. “Estou no melhor país do mundo, meu Deus e minha igreja são corretos, meus filhos são os mais belos e inteligentes.” Emolduro as certezas e decoro as paredes do meu bunker individual, resistindo ao vento da crítica e às agruras do relativismo. Seriam felizes tais seres? Bom domingo para todos nós!

 

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