SERGIO CASTRO/ESTADÃO
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O começo do fim

Temos uma vida até junho e outra nos meses finais. Somos duas consciências em dois tempos distintos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 03h00

A transição junho/julho é simbólica. É um portal entre dois mundos. Metade do ano se encerrou. Outra metade começa. Ao final dos primeiros seis meses (50% do nosso giro ao redor do Sol), já sabemos que as promessas de Ano-Novo, mais uma vez, foram vazias. Terminou o tempo ideal e anuncia-se o real do segundo semestre.

A partir de julho, os dias passarão de 24 para 12 horas e, por volta de outubro, encolhem para apenas 6. É o poder magnético do Natal e do Ano-Novo, o qual vai encurtando tudo. Piscou? Dia das Crianças! Piscou de novo? Panetone! Entre o carnaval e o segundo semestre, tudo se arrasta como uma cáfila sedenta no Saara. Agora será um tropel insano de galgos em disparada. 

O calendário dirá, solene, que há o mesmo número de dias (ou quase) em cada semestre. O relógio permanecerá no seu ritmo. Nós sabemos que nos enganam. Temos uma vida até junho e outra nos meses finais. Somos duas consciências e duas vidas, em dois tempos distintos. Há um Karnal do primeiro semestre e outro do segundo. Assim também há Souzas, Smiths, Oliveiras e Soares para cada metade ideal do enganoso registro calendárico

A natureza tem seu ritmo, e o instinto de alguns animais oferece estratégias para momentos variados. Pegue-se um grande urso da América do Norte. Há o tempo rápido do verão: o animal deve acumular gordura, o máximo possível. Engordar é sobreviver. (Oh! Inveja...) Depois, trata-se de achar uma toca e hibernar para o tempo lento do inverno. Que aula de planejamento instintivo! Sem terem decifrado o sonho do faraó sobre os sete anos de vacas magras, os ursos seguem os conselhos do sábio José. 

Sugiro o modelo ursino para nosso ano. Passaríamos o primeiro semestre de dias largos, acumulando dinheiro e fazendo muita atividade física. Ativaríamos o modo “mente racional” no máximo. Depois, no segundo semestre, comeríamos bastante e gastaríamos as reservas dos dias produtivos no começo do ano. Festas, amigo-secreto, bebidas e muita comida: nossa estratégia de sobrevivência harmônica. Os ursos parecem felizes no seu modo de vida. São respeitados no mundo selvagem. 

Temos de aceitar: o segundo semestre, que começa logo agora, é um período atípico. É preciso aceitar uma linha reta de hibernação da boa forma física ou da racionalidade. Começa agora o parto do festeiro. Depois, ele precisa morrer para que ressuscite a fênix ordenada e metódica.

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