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O colecionador de sombras

Saindo em março pela Companhia das Letras O Cinema no Século, baita antologia dos ensaios de Paulo Emílio Salles Gomes dispostos de maneira diversa daqueles volumes editados pela Paz e Terra, nos anos 1970. Sua releitura reiterou em mim a certeza de que nunca tivemos um analista de filmes da estatura de Paulo Emílio.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2015 | 02h07

Cinéfilo tardio, até os 20 e poucos anos, ele só teve olhos para literatura e política. Líder da Juventude Comunista em São Paulo, sua alma de agitador estudantil só lhe permitiu manter-se ligado em livros, artes plásticas e (bem menos) música. Preso um mês depois do "levante vermelho" contra o governo Vargas, em novembro de 1935, ficou ano e meio no Presídio do Paraíso, de onde escapou cinematograficamente para o exílio. Em Paris desiludiu-se com o comunismo francês, docilmente stalinista, e descobriu a cinefilia.

O batismo na nova crença foi A Grande Ilusão, de Renoir, e seu padrinho, o físico Plinio Sussekind Rocha, também exilado na Europa. Introduzido por ele no Cercle de Cinéma du Trocadéro, lá assistiu às primeiras obras de Eisenstein, descobriu A Paixão de Joana D'Arc, de Dreyer, e, catequizado pelo mestre, aderiu à cruzada contra o filme sonoro encetada pelo Chaplin Club, pioneira maçonaria cinematográfica sediada no Rio de Janeiro, em que Rocha orientava o gosto de Octavio de Faria, Vinicius de Moraes e outros menos lembrados.

Como seus colegas de cineclube, Paulo Emílio venerava Chaplin. Chamava-o de Carlito, no singular, e ver seus filmes se lhe afigurava "tão necessário e bom quanto ler Eça de Queiroz". Seu maior temor era que Chaplin morresse antes dele e a emoção e a tristeza o impedissem de escrever o que quer que fosse o seu legado. Não precisou passar por essa provação. Chaplin morreu quase quatro meses depois de Paulo Emílio, em 1977.

Ao primeiro sinal de beligerância entre França e Alemanha, voltou para a Brasil. Sua paixão pelo cinema surpreendeu mais os velhos companheiros da Pauliceia - Antonio Candido, Décio Almeida Prado, Ruy Coelho - do que sua guinada ideológica para o "socialismo democrático". Como alguém com preocupações artísticas de ordem elevada podia dedicar atenção a um tipo de espetáculo popular, mero entretenimento, como o cinema?, perguntou-se Coelho. "Levo cinema a sério porque o considero uma arte", respondeu-lhe Paulo Emílio, indiretamente, na abertura de sua demolidora crítica a Fantasia, de Disney, no quinto número da revista Clima.

A capitulação aos argumentos do amigo veio com as primeiras idas ao cinema em sua companhia. "Assistir a um filme junto com ele era uma experiência única", revelou Coelho. De vez em quando Paulo Emílio apertava-lhe o braço, chamando-lhe a atenção para um enquadramento ou um movimento de câmara. Terminada a sessão, vinham os comentários. "Sempre extremamente iluminantes", segundo Coelho.

Com as luzes de Paulo Emílio, surgiu e expandiu-se o Clube de Cinema, entidade informal à base de filmes arduamente alugados, projetados no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia, no terceiro andar da Escola Normal da Praça da República, e, vez por outra, em casas particulares. O Clube seria o embrião da Cinemateca Brasileira e o primeiro palco para os iluminantes comentários de Paulo Emílio, antes e depois das sessões, um trailer de suas aulas na futura Universidade de Brasília e onde mais sua verve, sua inteligência, sua voz tonitruante e seu riso contagioso puderam ser apreciados.

Paulo Emílio aqui chegou já pensando em voltar, ideia fixa concretizada em fevereiro de 1946. Sonhava morar para sempre em Paris, mas ao cabo de oito anos retornou a São Paulo para organizar o Festival de Cinema do 4.º Centenário da cidade e, em seguida, a Cinemateca Brasileira, com o know how aprendido junto a Henri Langlois, o mítico criador da Cinémathèque Française, uma das muitas e fecundas amizades por ele cultivadas nos meios cinematográficos da Europa. Íntimo dos mais destacados intelectuais europeus, em especial daqueles ligados ao pensamento cinematográfico, nenhum foi tão fundamental para sua formação como crítico e ensaísta quanto o francês André Bazin.

A influência francesa, notável até nos galicismos que frequentemente empregava ("scénario" em vez de roteiro, por exemplo), moldou suas preferências estéticas, mas, ao contrário de diversos críticos parisienses, não desperdiçava sua devoção com talentos discutíveis, nem seu latim com o varejo imposto pelo mercado exibidor, de que podia manter olímpica distância por não ser um crítico da imprensa diária, mas um ensaísta, quando muito semanal, do Suplemento Literário deste jornal. Tinha a postura e o apetite de um scholar, de um curador de cinemateca, de um "colecionador de sombras", como ele próprio, exagerando na modéstia, gostava de se definir.

A seus ídolos iniciáticos - Chaplin, Renoir, Eisenstein, Dreyer, Stroheim, Flaherty, Rossellini, Jean Vigo - manteve-se fiel até o fim. Sobre todos eles escreveu páginas magníficas, até hoje insuperáveis em língua portuguesa, sendo que a Vigo dedicou um estudo pioneiro, jamais superado, escrito diretamente em francês e publicado pelas Éditions Du Seuil, em 1957, só traduzido no Brasil 27 anos depois, pela Paz e Terra.

Tinha uma visão idealizada do cinema, que alguns talvez prefiram qualificar de purista. Sua birra com o sonoro parecia algo bizantino no início dos anos 1940, mas havia sólidos motivos para que o considerássemos, de certo modo, um retrocesso, o limiar de "uma arte novamente balbuciante" e, o que é pior, ainda segundo Paulo Emílio, viciada e ainda mais mercantilizada. "O falado aumentou a atração, nivelou tudo numa brilhante mediocridade", escreveu em 1942, prevendo que o cinema muito teria de lutar "para chegar ao que deve ser".

O que o cinema deveria ser ou ambicionar? Uma arte diametralmente oposta à diversão de mafuá, como fora em sua primitiva existência, ou seja, uma arte que arriscaria chamar de elitista, no melhor sentido que essa palavra pode e merece ter. Imagino o horror com que Paulo Emílio teria testemunhado a vulgarização terminal do cinema por trucagens digitais, pelo 3-D e outros abracadabras tecnológicos. O som foi apenas o começo.

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