O colchonete

-Você mandou me chamar, Dodo?

Luis Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2012 | 03h07

- Mandei, dona Berenice. Mandei. Por favor, sente-se.

- Algum problema?

- Não, não. Eu só achei que deveríamos conversar sobre o nosso encontro na terça-feira.

- No bloco "Engrena que eu acelero"? Não foi um barato? Acho que nunca me diverti tanto.

- Pois é, dona Berenice. Mas a senhora deve ter notado que eu estava, meio... Qual é a palavra?

- Chumbado?

- Embriagado.

- Você estava ótimo, Dodo! Alegre. Desinibido. É um lado seu que eu não conhecia. Aliás, que ninguém na firma conhecia.

- Você comentou o nosso encontro da terça aqui no escritório, dona Berenice?

- Só comentei. Não contei tudo o que aconteceu. É claro, né Dodo?

- Tudo o que aconteceu?

- Você não se lembra de nada? Do bar? Do fundo do bar? Do colchonete em cima dos engradados de cerveja no fundo do bar? Nada?

- Colchonete?!

- De tudo que nos dissemos e fizemos?

- Defina "tudo", dona Berenice.

- Tudo! As confidências. As promessas. E o depois.

- O que houve depois?

- Digamos que o colchonete cumpriu seu papel.

- Meu Deus. Eu não sabia que tínhamos chegado ao colchonete. Um colchonete em cima de engradados de cerveja. Isto não.

- Mas foi lindo, Dodo. Você era outro homem. Não parou nem quando entrou o português do bar e...

- O quê? Entrou um português na história?!

- Ele só foi buscar uma lata de azeite ou coisa parecida. E você não parou. O português entrou e saiu e você continuou. Vupt e vupt. Você, hein Dodo?

- Vupt e vupt. Meu Deus do céu. E as confidências e promessas, dona Berenice?

- O que tem elas?

- Você sabe que um homem bêbado em cima de um colchonete diz qualquer bobagem. O colchonete está na fronteira entre o recato e a exposição total, à autopiedade e ao ridículo. Um homem num colchonete perde todo o escrúpulo e confessa tudo, até o que não fez. E promete o que não pode dar.

- Não se preocupe, Dodo. As confidências eu esqueci e as promessas eu não levei a sério. Nem a promessa de casamento. Eu sabia que não eram para valer. Afinal...

- O que, dona Berenice?

- Era carnaval.

- Obrigado, dona Berenice. Obrigado. Pela sua compreensão e pela sua discrição. Vamos fingir que nada aconteceu, e tudo volta ao normal. Inclusive, dona Berenice, vou lhe pedir um favor...

- O quê?

- Volte a me chamar de dr. Odorico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.