"O Código da Vinci" é a ficção do ano

A ficção do ano é mesmo O Código Da Vinci, de Dan Brown, que lidera há 27 semanas a lista dos mais vendidos com uma tiragem invejável no Brasil: 250 mil exemplares (além dos outros 6 milhões em todo o mundo).Animado com o sucesso, o editor Marcos da Veiga Pereira, da Sextante, especializada em livros de auto-ajuda, lança no próximo mês aquele que vem para desbancar todos os outros livros que procuram explicar os mistérios desse fenômeno editorial de Dan Brown (que rendeu um documentário da rede ABC e vai virar filme dirigido por Ron Howard): Os Segredos do Código. Organizado pelo jornalista americano Dan Burstein, o livro reúne opiniões de 60 especialistas sobre os temas abordados no best seller (evangelhos apócrifos, sexismo, esoterismo, sociedades secretas, linguagem artística cifrada e um longo etc.).Os Segredos do Código vai concorrer com outros três livros que já integram a lista dos dez mais vendidos entre os livros de não-ficção - Revelando o Código Da Vinci (Editora Madras), de Martin Lunn; Quebrando o Código Da Vinci (Editora Novo Século), de Darrell L. Bock; e Decodificando Da Vinci (Editora Cultrix), de Amy Welborn. Outros dois estão chegando às livrarias: Decifrando o Código Da Vinci (Editora Bertrand Brasil), de Simon Cox, e A Fraude do Código Da Vinci, do teólogo Erwin Lutzer, Editora Vida.Antes de falar deles, é conveniente explicar a razão de tantas manifestações contra e a favor do livro de Dan Brown. O escritor mexe num vespeiro, ao adotar os evangelhos gnósticos (ou apócrifos) para acusar a Igreja Católica de ser uma instituição nascida de uma mentira. A crer em O Código Da Vinci, Jesus casou com Maria Madalena, sua sucessora e líder da igreja primitiva, e ainda deixou uma filha, cujos descendentes se misturaram à família real francesa. Jesus não seria Deus, mas uma invenção do imperador Constantino no Concílio de Nicéia. Finalmente, os quatro evangelhos canônicos só são quatro (Mateus Marcos, Lucas e João) porque a Igreja teria escondido os outros de seitas gnósticas. Onde Leonardo da Vinci entra nessa história? Na rocambolesca tese feminista de Dan Brown, que começa justamente no Louvre, onde está a famosa Monalisa pintada pelo italiano.Segundo seu livro, Jesus queria Madalena como líder da igreja primitiva, mas Pedro "não via com bons olhos" esse poder sagrado protofeminista, reprimido pelo cristianismo. Brown compra a versão extra-oficial dessa história: após a crucificação de Jesus, Maria e sua filha Sara partiram para a Gália e lá fundaram a linhagem dos merovíngios, da monarquia francesa. Essa dinastia, encravada na organização secreta Priorado de Sião, tinha os templários como uma espécie de milícia. É aí que entra da Vinci. Como Victor Hugo, ele seria um membro dessa organização, que conhecia os segredos dos templários. O principal: o santo graal conservaria os restos do corpo de Maria, sentada à direita de Jesus na Última Ceia de Leonardo (quem está sentado à direita é João, mas seu rosto é feminino demais para ter o nome do apóstolo, argumenta Brown).No romance policial de Dan Brown, o "código" Da Vinci - ou seja, o significado secreto de sua cifrada pintura - é a pista para se chegar ao santo graal (a santa ceia do pintor não traz, por exemplo, o cálice sagrado). Essa pista é deixada por um morto, o curador do Louvre misteriosamente caído numa poça de sangue. O livro é uma espécie de O Nome da Rosa sem tanta erudição, mas com muita pretensão. O autor não resiste: acusa a organização católica conservadora Opus Dei de perseguir o Priorado de Sião, a fim de esconder a "verdade" sobre Jesus. O mistério do assassinato, claro, é a poção mágica que ele, espertamente, usa para seduzir os leitores.

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