O clima e a contagiante música de Nápoles

John Turturro descreve a aventura de rodar Passione

John Turturro, The Guardian, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Minha mãe era originária da Sicília e meu pai da região de Puglie. Minha prima Ada é meio napolitana. A maioria dos italianos de Nova York tem suas raízes em Nápoles, na Sicília e na Calábria - no sul da Itália. A própria Nápoles me lembra um pouco a Nova York dos anos 70, com a exceção que as pessoas vivem completamente espremidas. É um lugar maravilhoso e muito perigoso. Tem muita brutalidade, mas também um senso de poesia - inúmeros escritores viveram nesta cidade e escreveram sobre ela. Os napolitanos têm uma linguagem própria e, o que é mais importante, as pessoas são incrivelmente musicais. A relação entre música clássica e popular remonta a tempos muito antigos. Muitos compositores de música clássica (e alguns dos grandes cantores líricos) continuaram cantando canções napolitanas a vida toda.

Por isso quis fazer um filme sobre a cidade e sua música. O mundo do crime que todos vimos em Gomorra faz parte da cultura de Nápoles, mas ali a música é vital. Elas coexistem. A música é tão fundamental quanto coisas básicas, como um teto, comida e uma família. Se você canta uma música pela rua, as pessoas aos poucos o acompanharão, mesmo que você não seja um bom cantor. Se tiver vontade, saia na rua e encontrará alguém disposto a dançar com você; não é difícil.

Fiquei conhecendo Nápoles através do cinema: trabalhei com Francesco Rosi na adaptação de A Trégua, de Primo Levi. Por meio de Francesco conheci a obra do dramaturgo Eduardo De Filippo, e trabalhei numa peça sua, Questi Fantasmi (Estes fantasmas), em que se cantava muita música napolitana. Levamos a peça para Nápoles e foi uma grande experiência. A verdade é que Nápoles tem uma cultura complexa, e ela se manifesta na música, que pode ser inspiradora, emocionante, realmente sensual e engraçada, mas contém também uma enorme ironia. Há uma canção famosa, chamada Dove stá Zazá?, cuja letra fala de um homem que procura o seu amor: "Onde está você? Preciso te encontrar - mas se não encontrar, ficarei com sua irmã". Interessante que a ironia se perde quando a letra é transplantada para outra realidade, porque as pessoas a transformam em saudade por um lugar distante.

Começamos a rodar um documentário, mas, à medida que avançávamos, percebemos que estávamos fazendo uma aventura musical. Uma das nossas principais inspirações foi o livro de viagens de Norma Lewis, Nápoles 44, sobre a época em que ele esteve na cidade, durante a 2ª Guerra Mundial. Chegamos a conversar porque eu pretendia adaptar o livro para o cinema, mas acabei me convencendo de que seria uma tarefa muito difícil porque é extremamente episódico e o toque do escritor é de grande delicadeza. E além disso precisaria de muito dinheiro.

Milagre. Uma coisa que não conseguimos fazer foi filmar o milagre da liquefação do sangue de São Genaro, que ocorre duas vezes ao ano na catedral de Nápoles. Estávamos lá quando aconteceu. O arcebispo traz uma ampola contendo o sangue sólido de São Genaro, e se ele não se liquefaz, diz a lenda que uma calamidade cairá sobre a cidade. O júri ainda não consegue decidir se o milagre é autêntico, mas eu fiquei impressionado.

Nosso objetivo era fazer algo na mesma linha do filme Buena Vista Social Club; como afirmo no filme, a música é uma coisa emocionante e arrebatadora - é o alimento da alma. Buscamos uma maneira de competir com filmes em que há um enorme investimento de dinheiro e inúmeros efeitos especiais e muita ação. Tive de fazer tudo isto sozinho: estou acabando o terceiro filme Transformers. Na verdade é quase impossível fazer um filme médio no clima atual. Vivemos numa época muito difícil e muitas companhias tiveram de fechar. O próprio Spike Lee tem problemas para levantar dinheiro. É preciso encontrar outras maneiras de fazer cinema, e realizar Passione foi uma experiência fantástica para todos nós. TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

QUEM É

JOHN TURTURRO

ATOR E DIRETOR

Nascido em Nova York, em 1957, especializou-se em papéis de imigrantes. Ganhou o prêmio de interpretação no Festival de Cannes, em 1991, por Barton Fink, filme dos irmãos Joel e Ethan Coen.

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