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O claro enigma da palavra singular

Aposto que você ficou arrepiado quando leu Conversa com a Pedra, de Wislawa Szymborska (1923-2012), do livro Poemas (tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2011, 168 págs., R$ 40). Eu também fiquei e, mesmo depois de me perguntar de onde me vinha o calafrio e refletir sobre os versos, eles ainda me emocionam.

ELIANA CARDOSO, PH.D. PELO MIT, É PROFESSORA TITULAR DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h08

Na revista piauí (março, 2012), Eucanaã Ferraz escreve que podemos ler a Conversa como súmula da poesia de Szymborska. "O poema faz-se numa série de variações que encenam a mesma procura obsessiva, ou ainda, o desejo permanente de compreender aquilo que desafia os sentidos e a razão. A pedra ocupa, portanto, o lugar que cabe a Deus, à morte, ao universo, ao medo, ao desejo, a certas memórias, a tudo que tentamos investigar sem sucesso, a tudo que não sabemos e que, a despeito de nossos esforços, devolve-nos à plena ignorância."

Também acredito que o poema permite muitas leituras, mas prefiro pensar que a pedra ocupa não o lugar de algum mistério indeterminado, como sugere Ferraz, mas o mistério da palavra ou o mistério dos poemas, eles mesmos. Quase nunca é fácil entendê-los e ainda mais difícil compô-los. Os versos da Conversa com a Pedra lembram a busca desesperada da poesia.

Imagino um diálogo entre Wislawa Szymborska e Carlos Drummond de Andrade sobre a angústia da criação e os versos que ainda esperam escrever.

Ela: Bato à porta da pedra./ - Sou eu, me deixa entrar.

Ele: Trouxeste a chave? 1

Ela: Quero penetrar no teu interior/ olhar em volta,/ te aspirar como o ar.

Ele: Cava sem alarde/ perfurando a terra/ sem achar escape. 2

Ela: Não posso esperar dois mil séculos/ para estar sob o seu teto.

Ele: Contempla as palavras. 3

Ela: Não busco em ti refúgio eterno.

Ele: Meu bem, o mundo é fechado,/ se não for antes vazio. 4

Mas ela desconsidera o sono rancoroso das pedras e dos minérios. Insiste ainda:

- Sou eu, me deixa entrar.

- Não tenho porta, diz a pedra.

A pedra serve bem como metáfora da palavra, que deixou ser o signo transparente das coisas. No século 16 - diz Foucault (As Palavras e as Coisas, Martins Fontes, 2002) - a linguagem deixou de ser um conjunto de signos independentes em que "as coisas se refletem como num espelho, para enunciar, uma a uma, sua verdade singular. É antes coisa opaca, misteriosa, cerrada sobre si mesma". Fechada e impenetrável, a pedra é também símbolo do poema indivisível, poema monumento, monumento do nada. Aqui vale a pena ler Antonio Cicero (Poesia e Filosofia, Civilização Brasileira, 2012) e a ele voltarei quando retomar, antes do final deste artigo, a ideia da concretude do poema.

Antes, chamo a atenção para um tema subjacente aos versos da Conversa, tema ligado a outra preocupação de Szymborska: a ideia de que esquecemos nossa própria origem e perdemos, portanto, a capacidade de nos comunicar com o mundo da natureza:

"- Não vais entrar - diz a pedra. - /

Te falta o sentido da participação.//

Fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu./

Com a gota d'água, ela dirá o mesmo que a folha".

O desencontro entre o humano e as coisas da natureza se repete em outros poemas de Szymborska e reaparece de roupa nova cada vez. Em Entre Muitos, Szymborska diz que poderíamos igualmente ter nascido aranha, rato do campo, árvore. Somos frutos do acaso? Drummond também tem dúvidas quando pergunta "Como saber que foi/ nossa aventura, e não/ outra, que nos legaram?". Mas Szymborska aborda o tema do acaso à la Darwin. Acaso ou necessidade? Fascinada pelo dilema, ela, a ele, retorna em Sob Uma Estrela Pequenina e mais uma vez em Discurso na Seção de Achados e Perdidos.

À vontade com as tradições culturais ocidentais, celebrada tradutora de Baudelaire para o polonês, Szymborska editou uma revista cultural, Vida Literária. Ali assinava sua própria coluna: Leituras não obrigatórias, agora reunidas num livro ainda não traduzido no Brasil: Nonrequired Readings (tradução de Clare Cavanagh, Harcourt, 2002, importado, 256 págs., R$ 84,70).

Essas colunas resenham livros sobre os mais diversos assuntos: desde temas menores - como jardinagem e culinária ou manuais de autoajuda - até obras de história ou biologia. No prefácio, Szymborska diz que não gosta de ver as colunas chamadas de resenhas, pois enxerga cada uma delas como um comentário breve, ou melhor, livre associação sugerida pelo livro citado. E cada comentário (ou capítulo) se compõe de um único parágrafo e ocupa menos de duas páginas na versão inglesa.

Apenas dois capítulos falam de poesia. Talvez seja por isso que Szymborska tenha aberto seu discurso de aceitação do prêmio Nobel na Academia Sueca dizendo que achava muito difícil fazê-lo, explicando: "Tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato".

Um dos capítulos é sobre Czeslaw Milosz, que, segundo ela, não deveria estar ali, pois se trata de poeta de leitura obrigatória para quem tem o hábito de pensar de vez em quando. Ela então se vira para o nervosismo que experimenta na presença seja desse autor, seja de sua obra, e termina risonha, brindando Milosz com vodca gelada e comendo porco com sauerkraut em companhia do poeta que rejeita qualquer forma de embuste.

O outro capítulo, ironicamente intitulado O Mito da Poesia, comenta o livro Mito e Poesia, de Miodraga Pavlovic. Depois de lamentar a leitura dos ensaios no lugar dos poemas não traduzidos, ela escreve:

"Nada fácil. E de menos serventia do que fazer o oposto: primeiro os poemas e então tudo o mais que lhes diz respeito. É difícil adivinhar a forma da mobília a partir de blocos e lascas de madeira na carpintaria. Leio anotações de poetas com relutância. Raramente encontro tom e sentido convincentes. Alguma coisa me irrita na facilidade com que eles escrevem sobre poesia. Escrevem como se ela ainda escondesse segredos absolutamente inacessíveis a outros gêneros. Poetas sempre estiveram dispostos a tratar a poesia como se ela fosse o alfa e o ômega da literatura, e, naturalmente, houve períodos que confirmaram essa convicção. Mas hoje isso é um clichê. A poesia perdura e, com certeza, não é um gênero menor. Parece-me grosseiro, portanto, conferir-lhe alguma espécie de superioridade em percepção e sentimento vis-à-vis à prosa ou ao drama. Por muito tempo cavalgamos o mesmo Pegasus, e não fica claro quem se agarra à crina e a quem coube o rabo... Poesia isso, poesia aquilo, poesia aquilo outro... Na maioria dessas sentenças, o sujeito poderia ser substituído por prosa e daria no mesmo. Empreguei esse método na leitura das reflexões de Pavlovic, talvez contrariando as intenções do autor, mas adaptando-o à situação presente. Assim, no capítulo sobre mito e poesia, que dá título ao livro, por exemplo, lembrei repetidas vezes o que ele deixou de fora. Trabalhos que deram continuidade a lendas antigas, como José e Seus Irmãos de Mann ou o Ulisses de Joyce. Ou trabalhos que criaram novos mitos poderosos, como O Processo de Kafka ou Esperando Godot de Beckett. Apenas um ensaio pequeno intitulado Um Esboço da História da Literatura Futura merece menção especial. Uma peça deslumbrante, perspicaz, embora nada animadora quando você se debruça sobre ela. Entretanto, a li com alívio, pois finalmente o autor trata a literatura como um todo, e a poesia como um pedaço dela, nem mais nem menos importante do que o resto. E este é o tamanho que lhe cabe".

Talvez os comentários de Szymborska se apliquem em parte a ela também: seus poemas são melhores do que os seus pequenos ensaios. E quanto à diferença entre poesia e prosa, muitos discordariam do que ela defende. Diz Antonio Cicero: "Os poemas são os mais escritos dos escritos, porque são mais fixos do que os não poemas. Mas por que são mais fixos? Porque, enquanto aquilo que, os não poemas - inclusive as proposições filosóficas - dizem, é capaz de se separar do modo como foi dito, podendo, por isso, ser dito de outro modo (logo, podendo ser parafraseado e traduzido), aquilo, que os poemas dizem, é indiscernível do seu modo de dizê-lo, de modo que não pode ser dito de outro modo. Logo, não pode ser parafraseado nem traduzido".

Como os brasileiros que não leem polonês, agradeço a ousadia de Regina Przybycien que, contrariando a lei de que poemas não podem ser traduzidos, nos permite conhecer Szymborska, cuja poesia nos obriga a pensar, ao mesmo tempo em que nos comove ou nos faz sorrir. Como Drummond, Szymborska conjuga humor, intelecto e autoironia. Drummond é dono de obra mais extensa e de mais lirismo. Ela encontra na linguagem cotidiana a expressão de seu olhar original. A reflexão filosófica os aproxima. Para ele, a máquina do mundo se abre sobre "o pasto inédito da natureza mítica das coisas" e, para ela, se revela na Paisagem com Grão de Areia:

"O tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes.

Mas isso é só um símile nosso.

Uma personagem inventada, a sua pressa imposta

E a notícia inumana".

NOTA: OS VERSOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE CITADOS NO DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM SZYMBORSKA SÃO DOS POEMAS: 1 PROCURA DA POESIA; 2 ÁPORO; 3 PROCURA DA POESIA; 4 CANTIGA DE ENGANAR.

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