O círculo dos ricos

Curso oferece treinamento para mulheres que desejam ser mais elegantes e ter uma vida de luxo

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2019 | 02h00

Esqueça concorridos MBAs, doutorados exaustivos, debruçar-se sobre livros, varar madrugadas trabalhando ou estudando. Desconsidere a Primavera Feminista, equiparação salarial e direitos iguais aos gêneros. Você, mulher, quer subir na vida e valer um milhão de dólares? 

A Escola da Elite anuncia um caminho: um curso online de como se casar com um homem rico. E oferece o método Sete Passos Para a Alta Sociedade:

Passo 1. “Conheça a elite e entenda os nove atributos essenciais que você terá que desenvolver para se tornar mais bem-sucedida.” 

Passo 2. “Comporte-se como uma dama da alta sociedade: melhore sua linguagem corporal, técnicas de conversação, conduta, etiqueta e comportamento em geral.”

Passo 3. “Desenvolva uma imagem de sucesso. Aprenda a ter a aparência de uma mulher de alto valor. Vista-se com classe e promova a autotransformação. Você estará valendo um milhão de dólares.” 

Passo 4. “Aprenda a fazer conexões importantes com pessoas ricas e expandir sua rede de contatos. Domine a arte da ascensão social!”

Passo 5. “Conheça homens ricos e aprenda a sair com eles. Tudo que você precisa saber sobre encontros com caras da elite, incluindo coisas a fazer e não fazer!”

Passo 6. “Estratégias para iniciantes – onde morar? Como ter grana para tudo isso? Estratégias para quem tem orçamento limitado? Como começar do zero?”

Passo 7. “Estratégias intermediárias e avançadas – como fazer parte dos círculos sociais certos? Como ter uma boa ascensão? Como se comportar perto de homens ricos? Como fazer um homem rico patrocinar sua vida?”

Conhecer a elite? Dama? Valer R$ 3,9 milhões, um três quartos nos Jardins? Não é produto das Organizações Tabajara. A Escola da Elite é comandada por Anna Bey, 13 anos de “experiência com os ricos e viajando pelo mundo”, que bolou a plataforma educacional para mulheres que “buscam ser melhores e elevar seu nível social”.

“Descubra os segredos para se tornar uma mulher de classe! Este curso online está baseado em uma autoavaliação, oferecendo um programa de treinamento em vídeo para mulheres que desejam ser mais elegantes e ter uma vida de luxo. As alunas aprenderão estratégias de sucesso para entrar na alta sociedade, ter classe e estabelecer conexões que elevarão o nível de suas vidas ao topo”, introduz o site.

O curso promete ensinar como “ter uma vida cheia de extravagâncias e muito mais”. Primeiro paradoxo. Ela, Anna Bey, propaga um jeito de a mulher ficar rica como, casando-se? Não. Empreendendo. 

Segundo paradoxo. É preciso ter grana para fazer o curso de como ficar rica. O Plano 1 custa R$ 499. Imagino que o 2 e 3 sejam mais caros. Terceiro paradoxo. Mulheres não têm vida fácil fora muito menos dentro de um casamento. Quarto. Extravagância é sobreviver com pouca grana. Quinto. Marido rico não tem crises, depressões, angústias, tédio, solidão? Sexto. Rica porque se casou com um rico não sente culpa, não faz análise, não toma ansiolíticos, antidepressivos, não fica doente, não tem ciúmes, raiva. Sétimo. Ricos não têm estresse? 

Sugar, por vezes, alguém sem muito tem uma vida mais relax. E dinheiro não necessariamente traz... Você sabe.

*

O mercado de luxo chegou aos shoppings, às escolas bilíngues com mensalidade em torno de R$ 10 mil e a aplicativos de paquera. The Inner Circle abriu filial no Brasil. É preciso ser aceito, depois de uma checagem via dados do usuário expostos no Face, LinkedIn e sabe-se lá onde mais. 

“Você não precisa deslizar o dedo incessantemente. Nossa comunidade tem um processo de inscrição para novos membros que combina uma comunidade diversificada, com solteiros inspirados e ambiciosos que estão na mesma página na vida. Criamos um ‘social dating’ em que valores compartilhados e interesses mútuos resultam em conexões autênticas”, anuncia.

Mesma página na vida? Transparência é página oculta em redes sociais: o público é a bolha de endinheirados acima dos 30 anos, que passam por uma triagem; não são aceitos de imediato, mas recebem a confirmação via e-mail, depois da inscrição. 

São selecionados apenas usuários de determinadas profissões, escolaridade, de “alto escalão e carreiras consolidadas”. Algoritmos e pessoas checam nível educacional dos interessados, local de trabalho e cargo na empresa. 

Fiz uma experiência para entender metafisicamente o usuário: quem são, o que querem, para aonde vão e por quê. Me apresentei como “jornalista” e... Até agora não fui aceito. Os algoritmos sabem da dureza de uma das profissões que mais sofrem concorrência das redes sociais. 

Pensei em alterar para “escritor”. O aplicativo iria rir de mim, uma vítima das grandes redes de livraria em recuperação judicial e do Estado atual, o antigo maior comprador, que agora tem aversão a livros. Já pensou “dramaturgo”? Vão responder que a Lei Rouanet já era, a “mamata’ acabou, e me mandar pra Cuba. “Roteirista”? Perguntariam: Ouviu falar do bloqueio do TCU?

A era dos aplicativos de paquera está apenas começando. Por enquanto, passam pela seleção de proximidade, preferência sexual e, agora, carteira de investimentos. Logo, logo, ficarão mais setorizados.

Cada time poderá ter sua social dating. Afinal, se você é vascaína, imagine a chateação de namorar um flamenguista... Poderoso Tindrão será a rede exclusiva para torcedores do Corinthians. O grande evento será no cruzeiro Navio do Corinthians, que existe desde o centenário em 2011.

A polarização política é um nicho a ser considerado. Aplicativos HappnMito, ForaPetista, Lula&AmorLivres, TerceriaViaParaOSexo, GostoDoQueOlavãoGosta têm tudo para dar certo. 

NaCamaComAOprimida será o aplicativo para os admiradores de Paulo Freire. NazismoÉDeEsquerda para os doidões. BoraPraCuba será o da ala da esquerda assumida. O match, digo “reunión’, se dará entre aqueles que acreditam que a Venezuela é uma experiência socialista, não uma ditadura.

Gosto musical também pode ser o filtro para o match perfeito. Afinal, roqueiro que é roqueiro não sairia jamais com um não roqueiro. Pode-se até ter seleção por gênero: PunkVive, ExperimentalExperimentaTudo, BritishPoposudo, GrungeQueGamo. Correndo para o Inpi para registrar tudo isso aí...

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