O circo itinerante de Mr. Dylan

É um raro privilégio poder vê-lo ainda em cena, como hoje

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h07

Então hoje é dia de Dylan. O público vai aplaudir a gaita de Bob Dylan no momento em que ela surgir, na terceira música, Things Have Changed, com a qual ele ganhou um Oscar (a estatueta, ou uma réplica dela, estará em cima da caixa de som, envolta por colares de mardi gras). Os seguranças, em pânico, vão advertir: "Se fotografar, ele vai embora."

Dylan vai cantar coisas que quase todo mundo conhece, como Desolation Row e Ballad of a Thin Man, mas o público demorará quase um minuto para reconhecer essas canções. Não há a menor possibilidade de que um show de Bob Dylan seja revestido de um manto de nostalgia, de estandartização, porque ele cuida milimetricamente de tudo para que isso não aconteça.

Prestem atenção à banda de Dylan, porque esses caras não são deste mundo. Atrás de Dylan fica Donnie Herron, que toca pedal steel guitar, trompete, violino e o que mais Dylan mandar. Toca também uma miniguitarra elétrica, um tipo de bandolim elétrico, a Blue Star Mandoblaster, que dá um colorido especial aos solos. Ele é o único para o qual Dylan parece sorrir às vezes.

À frente de tudo, com o cabelo gomalinado e repartido ao meio, o guitarrista Charlie Sexton, que passa do blues e do folk ao punk rock sem secar os cabelos. No fundão, dividindo-se entre os contrabaixos acústico e elétrico, o veterano Tony Garnier, também diretor musical, tocando sempre com sua pose corcunda de animador de festas em galpões rurais. O baterista é Stu Kimball e o segundo guitarrista, que toca o tempo todo com o pé no tablado da bateria, um clone do Tom Waits, é George Recile.

O show desta noite, no Credicard Hall, será o quarto concerto de Dylan em seis apresentações previstas no Brasil. O repertório muda (não radicalmente, mas delicadamente) conforme a cidade. No Rio, no domingo, ele tocou It aint' me, Babe. E não deu bis. Em Brasília, na terça, ele tocou Don't Think Twice, It's Alright (que está na trilha da novela Avenida Brasil e já era vendida em bootlegs em 1962) e Blind Willie McTell. Em Belo Horizonte, na noite de quinta, tocou High Water (For Charley Patton) e It's All Over Now Baby Blue. E deu bis nessas duas últimas cidades, com Rainy Day Women #2 & 35.

Então, é torcer para Dylan ser apenas Dylan esta noite. Pensam que é fácil? Bom, ao longo dos últimos 50 anos, no mínimo, muitos foram anunciados como o "Novo Dylan", mas nenhum deles chegou perto: Donovan, John Prine, Barry McGuire, Jesse Winchester, Bright Eyes e até o próprio filho de Dylan, Jakob.

O público vai esperar que Dylan o bajule, mas ele não vai ceder, detesta idolatria. Vive dessa sensação de movimento permanente, é o seu leitmotif. "Às vezes, você se sente como um lutador inapto, que desce do ônibus no meio do nada, sem torcida, sem admiração; dá socos para sobreviver por 10 rounds ou algo do tipo, sempre fazendo outra pessoa parecer boa; vomita a dor no vestiário, pega o cheque e volta para o ônibus, seguindo para outro lugar nenhum", disse, em 1985.

Ao final, o chapéu e o casaco terão esquentado a cabeça de Dylan, e haverá um momento em que tirará o chapéu e passará a mão nos cabelos, arrumará os mullets ralos, para em seguida recolocar o chapéu. É um privilégio poder vê-lo ainda em cena.

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