O cinema experimental da Ásia

O diretor Apichatpong Weerasethakul vai exibir no evento filme político e poético de 2009

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

Fantasmas. Apesar do desejo de criar obra inédita, diretor vai mostrar filme anterior

 

 

 

Em uma passagem do filme Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives (ou Tio Boonmee Que Consegue Se Lembrar de Suas Vidas Passadas), pelo qual o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul recebeu em maio a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, na França, um dos personagens diz que os fantasmas não se prendem a lugares, mas a pessoas. Mas no caso da obra que ele vai exibir a partir de setembro na 29.ª Bienal de São Paulo, Fantasmas de Nabua, de 2009, eles estão presos a uma província com problemas de violência nas Filipinas, como Apichatpong diz na entrevista que concedeu ao Estado desde Bangcoc, onde vive e trabalha.

No filme, de apenas cerca de 10 minutos, arruaceiros de Nabua jogam futebol nas ruas com uma bola de fogo. Como Apichatpong não deixa de incluir a política em meio a seus filmes de beleza visual e repletos de poesia, o artista faz referência neste trabalho a uma vila que, em 1965, sofreu emboscada do governo filipino para eliminar as aspirações comunistas dos moradores daquela região.

Superstição. Em Uncle Boonmee, que integrará este ano a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - uma retrospectiva do tailandês para a ocasião ainda não está acertada - a questão é a reencarnação. Um homem doente vai para o campo esperar sua morte e, no local, recebe a visita da mulher e do filho que já morreram. "Os filmes de Apichatpong são como obras a partir de sonhos, de ideias misteriosas e supersticiosas", diz a curadora japonesa Yuko Hasegawa, que fez parte do time de curadores internacionais convidados pelo evento para seleção dos artistas e foi a responsável pela indicação do tailandês para a 29.ª Bienal.

Nascido em Bangcoc, em julho de 1970, é um criador jovem (debutou em 2000 com Mysterious Object at Noon), mas celebrado internacionalmente - em Cannes mesmo, recebeu, em 2004, o prêmio especial do júri por Mal dos Trópicos. Licenciado em arquitetura pela Universidade de Khon Kaen e mestre em Belas Artes pela School of the Art Institute de Chicago, nos EUA, Apichatpong estava interessado em realizar, como contou Yuko Hasegawa, um trabalho especial para a Bienal, uma história fantástica que teria como localidade a Amazônia - há um fascínio do artista pela floresta, de uma forma geral, em suas obras. Por questão de falta de tempo - ainda mais pela felicidade do grande prêmio no festival francês - Apichatpong se viu tomado por um turbilhão de compromissos desde maio e foi resolvido que apresentaria na mostra Fantasmas de Nabua, exibida no ano passado na Inglaterra e na Ásia

O cinema de Apichatpong Weerasethakul é totalmente experimental, uma característica que impulsionou a entrada de seus trabalhos também nos cubos brancos da arte contemporânea - sejam institucionais ou galerias. Mas é na Tailândia mesmo que o artista, ainda que internacional, está focado. Está entre os fundadores da empresa Kick the Machine, criada em 1999 para apoiar filmes experimentais e vídeo em seu país, "pobre e pequeno", imerso em crise política.

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