O chamado da estrada em duas obras

Um Mundo Secreto, atração da mostra, vai se somar a Na Estrada

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2012 | 03h10

Com alguma maldade, críticos brasileiros insatisfeitos com a abordagem do livro cult de Jack Kerouac, Na Estrada, por Walter Salles, estão chamando o filme que estreou na semana passada de 'Malhação beat'. Na Estrada seria clean demais - queriam sujeira, nisso repetindo um bordão que já vem desde a apresentação de On the Road no Festival de Cannes, em maio. Não importa o que digam, a essência está lá e, lógico, reclamar da beleza da imagem aplicada a certos temas é coisa que vem de longe - basta lembrar o exemplo, entre muitos possíveis, de La Terra Trema, de Luchino Visconti, acusado de esteticista, no auge do neorrealismo.

Talvez a estrada sonhada pelos detratores de Salles seja a do mexicano Gabriel Mariño em seu longa Un Mundo Secreto, que terá amanhã sua segunda exibição no Festival de Cinema Latino-Americano. Programe-se - poucos filmes estão tendo essa chance. A maioria passa uma vez, e só. Um Mundo Secreto abriu na semana passada, para convidados, a sétima edição do Festival Latino e amanhã terá projeção para o público. Em Berlim, em fevereiro, integrou a programação da mostra Generation. Um Mundo Secreto conta a história de garota que põe o pé na estrada. No último dia de escola, em vez de se juntar aos colegas para celebrar, Maria - é seu nome - junta suas coisas, compra uma passagem de ônibus e se lança numa viagem. Ela atravessa o México. Busca o quê? A si mesma, com certeza.

Lúcia Uribe é a intérprete - excepcionalmente boa - do papel e, na apresentação do filme, na Berlinale, o diretor Mariño disse que foi um privilégio trabalhar com ela, que vestiu a pele da personagem e fez com ela a viagem iniciática que desvenda o mundo secreto. Que mundo é esse? O que faz de Maria essa criatura opaca, silenciosa, que se dá aos homens (aos colegas) e ganha fama de promíscua? Maria não diz não, mas não é o prazer que a move. Depois do sexo, ela esbofeteia o próprio rosto. Por que uma mulher? Mariño disse que nunca teve dúvida de que queria uma personagem feminina. Só a mulher poderia libertá-lo - a ele, um homem - para ser livre e emocional.

Da Cidade do México, Maria ganha a estrada. Conhece muitas pessoas - e um rapaz, tão tímido que tem vergonha de dividir o quarto com ela. Como filmar a história de Maria, como integrar a paisagem ao relato? Mariño e seu diretor de fotografia - Ivan Hernandez, com passagem pelo Talent Campus, a oficina de novos talentos do Festival de Berlim - discutiram muito o tipo de imagem que seria adequada. Pesquisaram nas fotos de Nan Goldin e nas pinturas de Edward Hopper. Mariño queria que o filme fosse uma janela que, do caos urbano, ganhasse a paisagem áspera, seca, mas com passagens de cor e exuberância.

A regra era - luz natural. Nenhum artifício. O mesmo princípio aplicado à interpretação. Tudo isso, mais o segredo revelado da protagonista, faz da viagem de Mariño e Lúcia Uribe uma experiência intensa. Mas o bom do filme, para o espectador de São Paulo, é essa oportunidade que oferece para se cotejar as duas viagens, a de Salles e a de Mariño. Os que reclamam da primeira têm agora a obrigação de conferir a segunda. O chamado da estrada, e o que ela revela do mundo interior de personagens em busca deles mesmos.

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