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O céu de Berlim

Tudo pronto para o festival que começa quinta com filme dos irmãos Coen e protesto contra o Irã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

Frio e vento, precedendo as nevascas, costumam se abater sobre Berlim nesta época e isso repercute no tapete vermelho no primeiro dos três maiores festivais de cinema do mundo (os outros são Cannes, na primavera europeia, e Veneza, no fim do verão). Berlim realiza-se em pleno inverno e raras estrelas arriscam-se a sair de uma limusine e tirar a estola de pele para exibir um decote generoso. Para compensar a falta de glamour, a Berlinale, como é chamada, investe pesado na política.

Debate-se muito, a estética como a política, no Festival de Berlim. O deste ano não foge à regra e prepara protesto contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad, no Irã, em defesa de Jafar Panahi e outros criadores que têm sido sufocados pela censura do regime dos aiatolás. Panahi foi convidado a integrar o júri, mas já se sabe que não poderá participar, preso como está em Teerã - o processo contra ele foi considerado por observadores tão inconsistente quanto a eleição que reconduziu Ahmadinejad ao poder foi vista como fraudulenta. "Vamos protestar contra o veredicto drástico que quer impedir Panahi de seguir filmando", já anunciou o diretor da Berlinale, Dieter Kosslick. Só para lembrar - Panahi ganhou o Urso de Prata por Fora de Jogo, sobre garota que tenta driblar a lei islâmica que impede as mulheres de frequentarem estádios de futebol.

O circo já está montado, mas para sua inauguração, na quinta, a Berlinale propõe um movimento que parece mais light. É preciso desconfiar dessa ligeireza. Afinal, o filme escolhido para abrir o 61.º festival é Bravura Indômita, dos irmãos Coen, e os filmes deles também sabem ser provocativos e politizados. Bravura Indômita parece menos - baseia-se no mesmo livro (de Charles Portis) que inspirou o western cômico e homônimo que, em 1969, valeu ao veterano John Wayne o Oscar de melhor ator. Jeff Bridges, que refaz o papel do xerife Rooster Cogburn, também foi indicado - de novo - para o prêmio da Academia, que venceu no ano passado. Se conseguir bisar a vitória, mas é difícil, porque o Oscar de ator parece destinado a Colin Firth de O Discurso do Rei, de Tom Hooper - que também estará na Berlinale, numa seção paralela -, Bridges não apenas estará se juntando ao seleto e reduzido grupo de atores que ganharam o prêmio duas vezes, em anos seguidos. Será inédito que um ator ganhe o Oscar refazendo o papel com o qual outro já venceu.

Em benefício dos Coen, vale assinalar que eles se voltam mais para o livro de Portis do que para o filme que dele retirou Henry Hathaway, um dos grandes que, até hoje, não tiveram o devido reconhecimento em Hollywood. O Brasil não participará da competição, mas terá representantes em seções paralelas. Os Residentes, de Tiago Mata Machado, vai para o Fórum, depois de vencer, com honra, o recente Festival de Tiradentes. Tropa de Elite 2, de José Padilha, terá sessão no Panorama Especial. O 1 ganhou o Urso de Ouro em 2008.

Diferentemente de Cannes e Veneza, Berlim é um festival de público, em que o número de ingressos à venda - em todas as sessões e seções - é sempre superior ao de convidados, para garantir a participação popular. Esse é um conceito do qual o diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, não abre mão. Ele viajou aos EUA em outubro, por certo garimpando filmes. Berlim já foi (mais) uma vitrine das produções do Oscar. Este ano, elas foram para seções paralelas ou ganham galas fora de concurso (como o filme dos Coen). O festival abre-se para as novas tecnologias e formatos e exibe diversos filmes em 3-D, incluindo o de Wim Wenders, sobre Pina Bausch, também fora de concurso, e a animação do francês Michel Ocelot, Les Contes de la Nuit, na competição. Essa última privilegia autores mais novos, não necessariamente estreantes, e cinematografias mais periféricas. O húngaro Béla Tarr, com O Cavalo de Turim, é o "veterano" da vez. Uma das atrações anunciadas é a estreia de Ralph Fiennes como diretor, que adapta Shakespeare em Coriolanus, que também interpreta.

Bergman. Nos últimos anos, a presidência do júri foi ocupada pelo diretor Costa-Gavras, pela atriz Tilda Swinton e pelo também diretor Werner Herzog. Vale a pena debruçar-se sobre suas escolhas para o Urso de Ouro - os vencedores foram Tropa de Elite; La Teta Asustada, de Claudia Llosa; e Um Doce Olhar, de Semih Kaplanoglu. O júri deste ano será presidido de novo por uma atriz - Isabella Rossellini. Filha de duas lendas, o autor Roberto Rossellini, fundador do cinema moderno, e a estrela hollywoodiana Ingrid Bergman, Isabella foi modelo, antes de ser atriz, ligando-se ao diretor David Lynch em filmes de culto (Veludo Azul e Coração Selvagem).

Isabella pode ser considerada amiga da Mostra de São Paulo - ela, inclusive, já criou o cartaz do evento dirigido por Leon Cakoff. Béla Tarr tem sido um cavalo de batalha da Mostra (para pegar carona em seu filme na Berlinale). Isabella fará justiça ao criador de Harmonias de Werkmeister e Satantango? O próprio Tarr estará à altura de suas experimentações anteriores? A Berlinale de 2011 terá todas as seções a que o público está acostumado - competição, Panorama, com filmes transgressivos, Fórum, que este ano privilegia a discussão sobre a família. Ingmar Bergman será homenageado com uma retrospectiva; Wim Wenders dará uma master class; e Berlim não se esqueceu de Mario Monicelli. O grande diretor de comédias italianas será lembrado com a exibição especial de O Marquês de Grilo, de 1981.

CONCORRENTES

Bizim Büyük Çaresizligimiz (Turquia/Alemanha/Holanda), de Seify Teoman

Almanya - Willkommen in Deutschland (Alemanha), de Yasemin Samdereli

Lipstikka (Israel/Reino Unido), de Jonathan Sagall

Wer Wenn Nicht Wir (Alemanha), de Andres Veiel

Yelling to the Sky (EUA), de Victoria Mahoney

The Future (Alemanha/EUA), de Miranda July

A Torinói Ló (Hungria/França/Alemanha/Suiça), de Béla Tarr

El Premio (México/França/Polônia/Alemanha) de Paula Markovitch

Jodaeiye Nader az Simin (Irã), de Asghar Farhadi

Les Contes de la Nuit (França), de Michel Ocelot

Margin Call (Estados Unidos), de JC Chandor

Saranghanda, Saranghaji Anneunda (Coreia do Sul), de Lee Yoon-ki

Schlafkrankheit (Alemanha/França/Holanda), de Ulrich Köhler

The Forgiveness of Blood (EUA), de Joshua Marston

Un Mundo Misterioso (Argentina/Alemanha/Uruguai), de Rodrigo Moreno

V Subbotu (Rússia/Alemanha/Ucrânia), de Alexander Mindadze

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