O cérebro criativo da Vogue

Em Grace, a a famosa editora de estilo inclui humor, glamour e alfinetadas

JANET MASLIN - THE NEW YORK TIMES ,

04 de dezembro de 2012 | 02h10

O lançamento de Grace - A Memoir (Random House, 333 págs., US$ 35), o fascinante livro de memórias de Grace Coddington, é um presente perfeito para as festas, inspirado provavelmente em The September Issue (2009), o documentário de R. J. Cutter sobre os bastidores da revista Vogue. No início, o tema principal parece ser Anna Wintour, a editora-chefe da revista, mas em seguida o filme é sequestrado pela exuberante Grace Coddington, sua diretora de criação, apresentada como uma mulher que luta por suas ideias, reage com veemência quando são rejeitadas, e, em geral, ofusca a chefe, se destacando como o cérebro da operação.

Os que vivem no mundo da moda (Grace: Thirty Years of Fashion at Vogue) e os que gostam de gatos (The Catwalk Cats, de Coddington e Didier Malige) já conhecem Grace Coddington - não pelos dois livros anteriores, mas pela extrema e alucinante beleza das fotos que ela cria, produz e supervisiona. No entanto, segundo Grace, The September Issue "é a única razão pela qual alguém já ouviu falar dela". É claro que a autora está sendo modesta. Uma das surpresas do filme é que ela, que perto dos 70 (hoje ela tem 71) parecia um fantasma vingador, tenha sido uma beleza em todo o frescor da juventude, com uma espetacular carreira de top model. O livro tem muitas fotos, desde a garota vinda de Gales até o mundo da moda em Londres no ápice do seu esplendor, depois, encerrada a carreira na Vogue Grã-Bretanha, na sua edição americana. No livro todo, seu estilo camaleônico é fenomenal.

No começo talvez ela se parecesse com a jovem Patty Hearst ou a Garbo. Ela personificou a sofisticação da alta-costura e o futurismo dos anos 60. Segundo afirma, foi a modelo para a qual Vidal Sassoon criou seu famoso corte de cabelo de cinco pontas, e revela que desenhava cílios de boneca nas pálpebras inferiores muito antes de Twiggy. Sua aparência mudou drasticamente depois que Eileen Ford, a rainha do mundo das modelos, depilou suas maravilhosas sobrancelhas espessas conferindo-lhe um ar etéreo - e acabou com o aspecto natural que nunca mais voltou.

Grace (Random House) é mais do que um mero texto que complementa as fotos. Mas, afirma: "Mal li dois livros na minha vida que não contivessem ilustrações". Por isso, cuidou para que o texto deste (para o qual colaborou Michael Roberts) fosse leve e ágil. E também agradavelmente franco; por exemplo, a autora conta que usava sutiã para levantar o busto, e, no início da carreira, fazia cachos no cabelo com ferro quente.

"Tudo isto era necessário para você ser terrivelmente moderna e de vanguarda, e acho que eu era assim", diz. Teve vários romances impetuosos, e vários empregos de modelo, entretanto, sempre preocupada com a moda. No seu primeiro caso amoroso, usou "um pijama listrado de algodão". Grace trabalhava como garçonete quando recebeu a proposta de posar para Norman Parkinson, o fotógrafo da moda que naquela época ela mais admirava. Sua primeira tarefa, consistiu em correr nua no meio de um bosque: "Foi muito divertido". Logo passou a trabalhar com as modelos mais conhecidas e os fotógrafos da elite, em Chelsea, Londres.

Então, o livro menciona abruptamente o horrível acidente de carro no qual sofreu um corte numa pálpebra. Milagrosamente a cicatrização do ferimento foi perfeita, mas por algum tempo ela não pôde trabalhar. Depois disso, passou a usar uma maquiagem mais pesada e preta nos olhos. Hoje, continua sendo a mulher provocadora que prefere os extremos ao meio-termo enfadonho, e ilumina a área ao redor dos olhos para conseguir o que chama de "aquele pálido aspecto nu renascentista". O resultado é uma mensagem espectral para o mundo da beleza convencional.

No papel de editora, não exagera o glamour das aventuras vividas na juventude. Entretanto, isto constitui a essência do livro, que ela apresenta com paixão e imaginação. O livro está repleto de pequenos sketches cômicos e hábeis caricaturas de amigos e colegas. Suas legendas são espirituosas e falam por si. A Azzedine Alaia, conhecido por seus modelos afilados, ela diz: "Azzedine, por acaso o meu traseiro fica um pouco grande neste vestido?". Ocorre que Alaia é conhecido pelo seu menosprezo por Wintour, atitude que aliás também Grace acabou adotando. Num capítulo do livro ela elogia suas relações de trabalho com Wintour, do seu carinho pelos filhos, de sua intensa dedicação ao trabalho, sempre mantendo uma expressão gélida.

Contudo, embora elogie "o impulso criativo e a intensidade com os quais Anna e eu trabalhamos juntas", e manifestando lealmente seu desprezo pelo filme O Diabo Veste Prada, Grace não deixa de introduzir alguma crítica. "É maravilhoso que Anna tenha feito tanto para tornar a Vogue uma marca global", afirma. "Entretanto, um pouco de nostalgia dos dias em que a moda vinha em primeiro lugar não faz mal nenhum."

Um dos melhores aspectos do livro é sua apreciação do estilo dos principais fotógrafos da moda. Ela trabalhou com todos. Mostra-se indignada com o 'divismo' (e menciona o perfeccionismo de Annie Leibovitz), fica assombrada pelo fato de os fotógrafos não abandonarem suas zonas de conforto e diverte-se com as exigências malucas das sessões de foto.

Uma das histórias mais engraçadas envolve o cantor Puff Daddy, que quis aparecer bem no meio de uma foto de duas páginas de Leibowitz, embora tivessem explicado que sua imagem desapareceria por causa da costura da revista.

Outra é o ensaio fotográfico sobre o tema de Lewis Carroll, um dos maiores triunfos de Coddington. Ela conta que Tom Ford chegou trajando um terno impecável para o papel do Coelho Branco. Na foto, ele está escorregando na toca do coelho. Para surpresa de Ford, ele tinha de aparecer de cabeça para baixo contra um fundo de veludo preto. Então pediu a Grace, sempre prestativa, que afastasse a gravata do seu rosto e que cuidasse para que as meias não ficassem muito à vista. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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