O centenário de Bernard Herrmann, o dramaturgo do som

Na década de 1930, quase todos os países instalaram sistemas de radiodifusão. Os europeus criaram organizações paraestatais que cuidariam dos mecanismos e do conteúdo do novo milagre sonoro. Em pouco tempo, ouviam-se no rádio concertos, óperas, transcrições para a nova mídia de importantes obras teatrais e literárias, palestras etc. Nos Estados Unidos e no Brasil, provavelmente por não haver pressão de uma tradição cultural maior e mais antiga, em vez de transformar o rádio num veículo de outros veículos, os novos profissionais foram brincar com a capacidade feiticeira do som, com seu poder de provocar a imaginação. Teria sido essa razão, talvez, pela qual o radialista Orson Welles - o futuro grande diretor de cinema - ao adaptar em 1938 para a CBS de Nova York o romance de ficção científica A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, tenha solicitado um músico de estúdio para cuidar da sonoplastia daquela endiabrada radiofonização e não um compositor "erudito" ou alguém versado em dramaturgia sonora do Metropolitan Opera.

Julio Medaglia, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2011 | 00h00

O criador e orquestrador de efeitos sonoros para a rádio, que também regia a orquestra da CBS e que encantara Welles com seu trabalho, era um anônimo nova-iorquino de 27 anos chamado Bernard Herrmann (foto). Bem, hoje se conhecem as consequências da transmissão daquela fictícia invasão de marcianos em Nova York, provavelmente o maior tumulto ocorrido na cidade e adjacências antes do fatídico 11 de setembro. E o trabalho de Herrmann foi tão convincente que Welles, ao dirigir em Hollywood em 1941 sua obra máxima e um dos maiores filmes da história, Cidadão Kane, não hesitou em levá-lo consigo para a criação da trilha sonora. Esse trabalho abriu as portas daquela industria do entretenimento de massa para o talento de Herrmann e os mais expressivos diretores logo o solicitaram: Willian Dieterle, Robert Stevenson, John Brahm, John Cromwell, Joseph Mankiewicz, Robert Wise, Nicholas Ray, Henry King, Henry Hathaway, Michael Curtiz, Alfred Hitchcock, Burt Lancaster, Georg Seaton, Fred Zinneman, Raoul Walsh, Henry Levin, J. Lee Thompson, François Truffaut, Brian de Palma, Martin Scorsese e outros mais.

E esse sucesso profissional e artístico tinha sua razão de ser. Com o desenvolvimento do cinema sonoro nos anos 30, Hollywood montara sinfônicas próprias para gravar as trilhas sonoras originais de seus filmes. Para tal, contrataram compositores de sólida formação nos mais importantes centros europeus, fugitivos do comunismo ou do nazismo. Ao mesmo tempo em que escreviam obras para a sala de concertos, figuras como Miklós Rózsa, Erich Korngold, Max Steiner, Franz Waxman, Dimitri Tiomkin, se esbaldavam em delírios sonoros com a grande qualidade dessas orquestras. Eram verdadeiras avalanches que glamourizavam, davam maior fluência e brilho àquelas películas, introduzindo também inspirados temas que se tornavam verdadeiros símbolos das produções.

A arte de Bernard Herrmann, porém, tinha outro significado. Ele usava a trilha sonora como efetivo terceiro elemento de narração, tão potente como o texto e a imagem. Através dela, ele passava informações do enredo com características que só o som permite.

Ao trabalhar com Hitchcock, a habilidade e talento de Herrmann atingiram o ponto alto. Ele era de fato um dramaturgo do som, mas o grande diretor inglês sabia como nenhum outro solicitar do compositor uma efetiva participação na narrativa e não apenas usar a trilha como simples adereço ou complemento para "lubrificar" ou apoiar aquilo que o texto e a imagem já mostram. Por essa razão que filmes feitos pela dupla a partir dos anos 50 - hoje antológicos - como O Homem Que Sabia Demais (no qual Herrmann aparece regendo a Sinfônica de Londres), O Homem Errado, Um Corpo Que Cai (trilha considerada por Pierre Boulez como a maior da historia da sétima arte), Intriga Internacional, Psicose (com as famosas "punhaladas sonoras") ou Os Pássaros, são inimagináveis sem a música desse mago da trilha sonora.

Bernard Herrmann nasceu em Nova York no dia 29 de junho de 1911 e faleceu na noite de natal de 1975 ao sair de um estúdio em Londres, onde havia concluído a gravação da trilha sonora do filme Táxi Driver, de Martin Scorsese.

JÚLIO MEDAGLIA É MAESTRO, AUTOR DE MÚSICA IMPOPULAR (GLOBAL), ENTRE OUTROS

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