O cenário internacional como memória

Em O Brasil e os Ventos do Mundo, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia revê a história recente a partir de sua experiência

José A. Guilhon Albuquerque, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2010 | 00h00

Não é das mais fáceis a tarefa de comentar o livro de Luiz Felipe Lampreia sobre O Brasil e os Ventos do Mundo, que se apresenta como memórias de cinco décadas na cena internacional. Muito mais fácil é lê-lo e dele tirar proveito de suas várias dimensões, que incluem a contribuição para a história diplomática recente, não só do Brasil, como de seus interlocutores mais relevantes; o relatório preciso do diplomata de carreira, marcado pela tradição do Itamaraty; o comentário moral sobre a legião de interlocutores domésticos e internacionais, dentre os grandes deste mundo com quem cruzou ao longo de uma vida; as poucas, mas importantes, revelações que permitem rever ou retificar a versão corrente de episódios controversos; o retrato panorâmico à mão livre da evolução do Itamaraty e de sua influência marcante na formulação de nossa política externa.

O que mais me chamou a atenção no livro do ex-chanceler - conduziu nossa política externa durante a maior parte do governo Fernando Henrique - foi sua abordagem discreta dos eventos, das pessoas e, sobretudo, dele mesmo. Nada das paixões que geralmente assombram o memorialismo, como o autoengrandecimento e o apequenamento dos desafetos, o mexerico, a investigação das profundezas da própria mente. Talvez a melhor maneira de situar essa obra, que certamente não é um diário, que vai além das memórias e é muito mais do que uma prestação de contas de uma longa missão, seria a de admitir que o livro me levou a reconhecer de forma diferente uma pessoa cuja atividade pública acompanhei de perto por interesse profissional, que tive a oportunidade de encontrar em diversas ocasiões, formais e informais, sem conhecer realmente. Para que mais serve um livro de memórias?

Antes de ser mais descritivo em meus comentários, devo dizer que o que mais impressionou, de maneira positiva, não foi apenas a abrangência da obra, que envolve praticamente todo o século passado e a década atual. Tampouco foram as revelações de primeira mão de episódios marcantes, como foram os primeiros desafios externos do governo Geisel, as crises resultantes da guerra entre o Peru e o Equador, do golpe contra o presidente Wasmosy do Paraguai, ou da eleição contestada de Fujimori no Peru. Foi sobretudo a forma despojada com que Lampreia fala na primeira pessoa, sem reivindicar um protagonismo excludente, sempre dividindo os louros com seus mentores, colegas ou subordinados e, de modo geral, com a diplomacia brasileira. O mesmo se aplica também aos ônus, incluindo a menção a episódios que lhe custaram críticas, como sua nomeação como embaixador em Paramaribo, como parte do que ficou conhecido como uma "intervenção branca" do Brasil no Suriname, ou sua saída do Ministério do Exterior e da carreira diplomática, que colegas seus viram como um "abandono" da casa, menção feita de maneira direta, sem adotar uma postura defensiva.

Vou-me ater ao que julgo ser a contribuição mais relevante do livro, porque envolve sua gestão no Ministério das Relações Exteriores, período em que participou diretamente dos acontecimentos, na condução de nossa política externa e, portanto, como observador privilegiado de nossa história recente. É, no meu entender, a parte mais rica da obra, uma vez que descreve, analisa e explica um processo que colocou o Brasil como principal interlocutor dos EUA na América, papel que o governo Lula pareceu exercer de bom grado na era Bush, mas reverteu de maneira ressentida na administração Obama.

Sua análise da chamada cartada europeia, na sua versão de uma alternativa excludente entre uma integração econômica com os EUA ou com a UE é bem fundamentada e, a meu ver, correta. Se é verdade que, na busca de parceria para a implantação de uma indústria automobilística, por Juscelino, os europeus se revelaram um contraponto vital ao desinteresse americano e, no caso da aquisição de tecnologia nuclear da República Federal da Alemanha, um beco sem saída, o projeto de integração birregional com a União Europeia mostrou-se uma quimera. Coincido inteiramente com sua visão de que os europeus nunca tiveram interesse real em criar uma área de livre comércio com o Brasil e o Mercosul, mas sim em manter permanentemente um pé na porta que permitisse afastar ou adiar o espectro de uma Alca que os excluiria.

A integração com a UE foi uma invenção de brasileiros e ibéricos, numa Europa em que nenhuma iniciativa prospera se não tiver origem em um dos Quatro Grandes - França, Alemanha, Itália e Reino Unido - e nada sobrevive ao veto de um dos Dois Grandes - Alemanha e França. Só tenho a observar que, na época, a opinião sobre a superioridade da cartada europeia me parecia prevalecer no Itamaraty, e não apenas, como seria perfeitamente compreensível, uma manobra tática para conter um avanço demasiado rápido da iniciativa dos EUA.

No atual contexto, sua enfática defesa dos direitos humanos como um dos eixos centrais da nossa política externa - revertendo uma política contrária do tempo do autoritarismo - é impecável e devo penitenciar-me de ter julgado, na época da adesão à Corte Interamericana de Direitos Humanos, uma manobra arriscada. O mesmo se pode dizer da questão nuclear, em que mostra com lucidez o terrível equívoco que seria nos envolvermos na construção de armas de destruição em massa.

Em época de eleições, creio que o livro de Lampreia é uma leitura muito oportuna.

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE É PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA FEA-USP

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