O caso de Agatha Christie com o marido e a arqueologia

Um dos aspectos menos conhecidos da vida da escritora inglesa Agatha Christie está sendo revelado numa exposição que fica aberta até março no Museu Britânico. A grande rainha do crime era uma arqueóloga amadora, tendo passado longos períodos em escavações, praticamente sem conforto algum, mas claramente adorando cada segundo dessas aventuras. Agatha Christie and Archaeology: Mystery in Mesopotamia mostra como o segundo casamento da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple com o arqueólogo Max Mallowan influenciou sua obra. O início da trama envolvendo Agatha e a arqueologia começou quando, em 1928, recém-divorciada, ela decidiu, de última hora, fazer uma visita ao sítio arqueológico de Ur, capital da Mesopotâmia, perto do que é agora Bagdá, no Iraque. Foi lá que ela conheceu Max Mallowan, um dos grandes especialistas desta área, responsável pela descoberta de um tesouro arqueológico de peças em marfim. Por sua contribuição à arqueologia, Mallowan seria, mais tarde, condecorado sir. O trabalho do arqueólogo tem suas semelhanças com o de um detetive e, talvez por isso mesmo, Agatha se sentiu muito à vontade ao auxiliar o marido no trabalho de recuperação do passado. Mesmo não estando no auge de sua juventude para os padrões dos anos 30 (a inglesa estava com quase 40 anos quando começou a acompanhar Mallowan em suas viagens), Agatha topava todas, encarando viagens feitas em condições primitivas, dormindo em acampamentos rústicos no deserto numa atmosfera reproduzida em livros como Morte na Mesopotâmia (1936), no qual a escritora conta a história do misterioso assassinato da mulher de um arqueólogo, um caso para o super Hercule Poirot. Já uma escritora mundialmente conhecida, Agatha dedicou o lucro de vários livros para patrocinar expedições arqueológicas. Mas o retorno, além de oferecer subsídios para sua fértil imaginação, era acima de tudo sentimental. A grande dama do crime não mediu esforços para criar as condições necessárias para que o seu segundo marido, 15 anos mais novo que ela, trabalhasse à vontade. Ela era a melhor assistente que Mallowan poderia ter. Agatha limpava e colava os caquinhos dos objetos descobertos, reconstruía peças de cerâmica, fotografava e catalogava tudo. Oriente Médio - A mostra do Museu Britânico nasceu de um seminário na Alemanha há quatro anos na Universidade de Essen. Valendo-se do acervo de museus de vários países, incluindo Viena e Suíça mas principalmente do próprio British Museum, a exposição reúne importantes objetos retirados de escavações em Ur, Nínive e Nimrud, na Síria, lugares explorados por Max Mallowan, segundo marido da escritora a quem ele dedicou as seguintes palavras: "Finalmente, me sinto feliz em registrar o quanto devo à minha mulher que tem sido de uma ajuda incansável e estimulante, e que me tem acompanhado no campo, tanto nas escavações quanto nas pesquisas por mais e 30 anos." Esse companheirismo fez com que Agatha se tornasse uma especialista no assunto, tão sábia que chegou a merecer o respeito de muitos colegas de Mallowan. A escritora também se tornaria extremamente popular por sua generosidade e talento na cozinha. Somente nas escavações de seu marido era possível comer suflês de baunilha e bombas de chocolate e ler o jornal inglês The Times. Ativa como ninguém e observadora como poucos, Agatha ainda encontrava tempo para escrever livros e peças de teatro inspirados em sua vida no Oriente Médio como Akhnaton (1937), E no Final a Morte (1945), Assassinato no Expresso do Oriente (1933) e Morte no Nilo (1937). A mostra do British Museum reúne objetos pessoais de Agatha e lembranças das viagens feitas por ela que se tornaram lembranças de uma época não tão remota assim no tempo, mas ainda assim tão exótica. Agora só é possível imaginar o que era viajar de trem para Bagdá num vagão do Expresso do Oriente. Além de reunir as primeiras edições dos livros inspirados por esta "second life" da inglesa, falecida em 1976, aos 86 anos, a exposição reforça o clima de uma época ao reproduzir uma couchette do famoso Expresso do Oriente, a arma usada para matar no livro Morte na Mesopotâmia e os figurinos originais usados no filme Morte no Nilo. Acompanhando a mostra, uma série de eventos em torno da vida e obra de Agatha Christie vai agitar o British Museum, incluindo um jantar, em fevereiro, com a curadora da exposição, Henrietta McCall, de anfitriã, em pleno British Museum. No cardápio, o menu que a escritora gostava de servir nas escavações arqueológicas e a exibição de filmes e fotografias inéditos de Agatha feitas durante suas viagens. Para os cinéfilos, o museu abre uma temporada de filmes baseados em histórias da grande dama do crime. Livros - O lançamento de dois livros completam a programação. Um deles é o catálogo da mostra com mais de 400 fotografias das excursões arqueológicas de Agatha Christie e Max Mallowan. O segundo é a primeira longa biografia de Mallowan assinado por Henrietta McCall, curadora da exposição do Museu Britânico. Ela fala do grande débito que o arqueólogo inglês tem com a dama do crime que aparentemente só perdeu seu humor uma vez: "Agatha não dizia não para uma aventura e, quando o marido se aposentou, ela já era uma senhora de 68 anos, com muitas viagens no bolso. Só em uma ocasião a escritora se enfezou. Foi na vez em que ela e o marido alugaram uma casa para doze famílias morarem. A habitação estava infestada de ratos que, numa noite, chegaram a passar por cima do rosto dela. Aí, Agatha Christie achou demais!" A história de amor entre Mallowan e Christie durou quase 50 anos, só encontrando um ponto final com a morte da escritora, aos 86 anos de idade. Há registro de um diálogo em que ele perguntou, logo após o pedido de casamento, se ela não se incomodava que a profissão dele era desencavar mortos, ao que a inglesa respondeu: "De jeito nenhum. Adoro cadáveres." Mas a curadora da exposição, Henrietta McCall, biógrafa de Max Mallowan e curadora da exposição, aproveita para desfazer um mito em torno de Agatha. Certa frase atribuída a ela ("É maravilhoso estar casada com um arqueólogo. Quanto mais velha eu fico, mais interesse ele tem em mim.") seria uma balela, divulgada, inicialmente, por um jornal sueco. Segundo McCall, a escritora não encarava bem a diferença de idade: "A verdade é que esse era um assunto tabu para ela, o que pode ser comprovado através de uma das peças expostas no British Museum. Trata-se de uma carteira de identidade de Agatha Christie em que o ano de nascimento, 1890, foi alterado por ela para 1899." E a curadora da exposição acrescenta: "Mais tocante ainda é que existe uma carta de Agatha em que ela lamentava o fato de não ter dado um filho para Mallowan. É muito triste."

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