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O carioca exemplar

Também nas areias de Copacabana exerceu sua versatilidade atlética atuando como goleiro de peladas numa equipe cujo craque era Heleno de Freitas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2018 | 02h00

Tão expressivo foi o interesse dos leitores pelo artigo sobre o Festival de Besteira que Assola o País (Febeapá), publicado no Aliás do último fim de semana, que me senti, mais que estimulado, compelido a escrever outra vez sobre a singularíssima figura de Sérgio Porto (1923-1968). Afinal, se ele era dois – o humorista multimídia Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta, seu heterônimo ou alter ego, como queiram – dois artigos não me soam excessivos. 

Por um longo tempo ele foi apenas sua pessoa física oficial, a face séria (ou menos moleque) e até meio lírica e sentimental de Stanislaw, o Doutor Jekyll do Lalau: um ex-estudante de arquitetura (jamais formado) e ex-funcionário do Banco do Brasil que podia ter-se consagrado nos esportes (nadou, remou, jogou basquete e vôlei pelo Fluminense), mas, sob influência do tio Lúcio Rangel, acabou no jornalismo. Primeiro, escrevendo sobre jazz na revista Sombra, mensário grã-fino para o qual seu tio contrabandeava inteligência, e sobre cinema no Jornal do Povo, editado por Aparicio Torelli, o legendário Barão de Itararé. 

Se graças ao Lúcio passou a entender de jazz e música popular brasileira pra chuchu, na convivência com o Barão seu humor ganhou todos os ângulos e contornos necessários. Gozador nato, tinha apenas cinco anos quando, ao ver uma mulher de seios avantajados a amamentar o filho, comentou com a mãe, Dona Dulce: “Aquela ali tem leite condensado.” 

Surpreendentemente tímido, tinha, segundo seu grande amigo Paulo Mendes Campos, “uma ágil comicidade de raciocínio e uma pronta sensibilidade diante de todas as coisas que merecem o desgaste do afeto”. Seu Id moleque estava sempre de prontidão. Sacava rápido e não negava fogo. Ao ser parado na rua por um prosélito das Testemunhas de Jeová, que insistia em atrai-lo para o rebanho, disparou: “Meu filho, como é que eu posso ser testemunha de Jeová se eu nem vi a briga?”. 

O restante que de humor ainda tinha – se tinha – a absorver, aprendeu com Millôr, seu maior amigo durante 20 anos. Mais do que isso, um irmão. “Vivemos juntos, amamos juntos, fomos à praia juntos (somos desses boêmios cariocas capazes de sair do bar às três da manhã, estar na praia às 8, e na máquina de escrever às 10) e de uma certa forma moramos juntos”, confidenciou Millôr no prefácio do Febeapá. Sérgio era mais eufórico. Nas areias fofas de Copacabana (seu bairro natal, onde viveu até morrer, no mesmo espaço da rua Leopoldo Miguez) ou nas dunas ondulantes de Ipanema, é ainda Millôr quem fala, “as dores ladravam e Sérgio Porto passava.”

Também nas areias de Copacabana exerceu sua versatilidade atlética atuando como goleiro de peladas numa equipe cujo craque era Heleno de Freitas, de quem foi padrinho de casamento, e ainda contava com as participações dos jornalistas esportivos João Saldanha e Sandro Moreira. Apelidado de “Bolão”, era, no gol, infinitamente superior a Di Cavalcanti, arqueiro de outro histórico time da “princesinha do mar”, mas essa é outra história, com outros pernas de pau ilustres, como Rubem Braga, Fernando Sabino e Vinicius de Moraes.

Muitas de suas primeiras crônicas são elegíacas reminiscências da tal “casa demolida” e do bairro que o hotel Copacabana Palace, inaugurado justo em 1923, pôs no mapa do cosmopolitismo e as habituais pragas da urbanização desregrada destruíram. A maioria delas saiu nas duas únicas coletâneas que lançou com seu nome: O Homem ao Lado (1958) e A Casa Demolida (1963). As demais, já assinadas por Lalau, puseram em cena uma família do balacobaco (Tia Zulmira, o primo Altamirando, Rosamundo e outros tipos inesquecíveis) e expuseram ao escárnio público os primeiros “personagens políticos”, fictícios e reais, imortalizados em Garoto Linha Dura e nos três volumes do Febeapá. 

Publicado em 1964, Garoto Linha Dura foi um ponto de inflexão (que naquela época ainda era turning point mesmo) na carreira de Sérgio e seu heterônimo. Já nos dava um retrato acurado do ambiente de censura, alcaguetagem, adesismo e perseguição política impostos pela “redentora” (a debochada alcunha que Lalau pespegou no golpe militar), exponencialmente ampliado no antológico besteirol que tanta fama daria ao autor, nas páginas do jornal Última Hora. 

Rebelde sem parti pris ideológico, anfíbio o bastante para ter trabalhado para Carlos Lacerda e Samuel Wainer, simpático a todas as manifestações da cultura popular e emérito mulherólogo, odiava racistas, puxa-sacos, militar metido a machão, burro metido a sabido, intelectual metido a besta e hipócrita de todos os matizes. Entre seus alvos prediletos, os mais assíduos eram os colunistas sociais (destaque para Ibrahim Sued e seus soberbos disparates) e o economista Roberto Campos, a quem só chamava de “Bob Fields”. 

Por sua ojeriza às futilidades da alta burguesia e como um repto às listas das “mais bem vestidas” do soçaite perpetradas por Ibrahim e seus epígonos, criou uma lista, constantemente renovada, das “mais bem despidas” do show business – as Certinhas do Lalau –, com algumas das mulheres mais gostosas do País.

Incansável “operário das letras”, escreveu para rádio, teatro, televisão, cinema, e colaborou em quase todas as publicações importantes do seu tempo. Seu canto de cisne foi o alternativo Carapuça, “semanário hepático-filosófico”, lançado dois meses antes de seu segundo e definitivo enfarte. 

Barbosa Lima Sobrinho fez a melhor síntese de sua magia: “O sol entrava em suas frases por todos os lados”. E Luis Fernando Verissimo, o melhor balanço de seu legado: “Nenhum herdeiro apareceu. Ser carioca é fácil, difícil é recriar o carioca como ele fazia”.     

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