O carioca e o paulistano

Há 12 dias tive o privilégio de assistir a uma palestra apresentada pelo decano dos críticos literários e um dos maiores intelectuais do País, professor Antonio Candido. Foi no IEB, o Instituto de Estudos Brasileiros, que começa a festejar desde já seu cinquentenário (antes mesmo do tão falado ano de 2012, que nunca se sabe, não é?). O tema foi um dos meus favoritos: A atualidade de Sérgio Buarque de Holanda. Foi Sérgio quem fundou o IEB em 1962.

O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h08

Para quem não sabe, Sergio Buarque de Holanda é autor de um dos principais ensaios da historiografia nacional, Raízes do Brasil. Meu saudoso guru, professor Richard Morse, era amigo dele e, também, do Antonio Candido. Conheceu-os pela primeira vez durante as pesquisas que fez em 1948 para seu livro A Formação Histórica da Cidade de São Paulo (esgotadíssimo, aliás). Colocava Raízes do Brasil ao lado de Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior como uma das três grandes interpretações do nosso país. O primeiro era weberiano, dizia Morse, invocando o sociólogo alemão Max Weber, o segundo freudiano, e o último marxista. Achava os dois primeiros mais ricos do que a abordagem de Caio Prado.

Morse gostava de contar para os alunos, nos Estados Unidos, histórias dos seus amigos intelectuais latino-americanos. Conheceu todo mundo, de Octávio Paz e Rubén Darío a Salvador Allende e Pablo Neruda. Mas guardava um lugar especial no seu coração para os brasileiros em geral e os paulistanos, em particular. Sempre achou a vida intelectual dessa cidade inspiradora.

Certa vez, Morse levou Sérgio Buarque para Nova York. Isto, se não me engano, ainda na década de 1950. O comentário do historiador brasileiro, durante um passeio pelo bairro de Manhattan, foi: "Que lugar curioso, com tanta delicadeza e grosseria". Referia-se aos inúmeros "Delicatessens" e lojas de "groceries", pequenas vendas de comida ubíquas na Nova York de então e até mesmo hoje.

Professor Candido começou sua aula no IEB avisando que pretendia fazer uso de dois estereótipos. O do carioca e o do paulistano. Disse que os estereótipos eram, em geral, odiosos, alimentados por preconceitos, "mas às vezes funcionam". Na primeira metade do século 20, paulistanos e cariocas eram vistos pelo resto do Brasil, como tipos antagônicos, segundo o professor, mineiro de origem. Não vou conseguir reproduzir a graça e genialidade da apresentação do Candido. Mas me lembro de que o carioca não costumava responder a cartas naquele tempo, enquanto era possível contar com uma resposta, sim, do paulistano. O primeiro cultivava mais as festas e o segundo, os automóveis. Um tendia para a tranquilidade e o outro para a pressa. Os dois tipos eram vistos deste modo pelo resto do País, segundo o professor. Havia, naquele tempo, uma grande distância física, cultural e de costumes entre as duas capitais, frisou.

Sérgio Buarque foi o intelectual que conseguiu reunir o melhor das duas, segundo Candido. Começou sua vida cultural no Rio e terminou-a em São Paulo. Sua biografia pode ser resumida como um "conto de duas cidades", diz, citando o autor inglês Charles Dickens. Do Rio trouxe a sofisticação e o cosmopolitismo intelectual. Levou para lá, uma cidade mais conservadora, em termos artísticos, o radicalismo estético da ala "esquerdista" do modernismo paulistano, liderada por Oswald de Andrade e Mário de Andrade.

Maior intérprete do sociólogo Max Weber no Brasil, Sérgio Buarque utilizava com perspicácia um dos seus conceitos centrais: o do "tipo ideal". Ou, se quiser, um estereótipo bem elaborado. Como exemplos, cito o capítulo de Raízes do Brasil, "O semeador e o ladrilhador", ou "Trabalho & aventura", ou seu tipo ideal mais famoso e profundo, "O homem cordial", que sozinho explica boa parte da cultura brasileira.

Ao lançar mão da antítese entre "o carioca e o paulistano", professor Candido elaborou com o bom humor e a elegância que lhe são peculiares uma abordagem weberiana da vida e obra de Sérgio Buarque de Holanda. Foi bonito de se ver. Não é por acaso que Richard Morse gostava tanto de São Paulo.

P.S.: É com saudades adiantadas que me despeço de você, querido leitor do Estadão. Esta é, por ora, ao menos, minha última crônica no Caderno 2. Foi um privilégio escrever neste jornal durante 17 anos. Logo mais vou estrear uma crônica quinzenal na revista Veja São Paulo.

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