O cara

Duas coisas difíceis de encontrar na França: ar condicionado e adoçante. São raros os cinemas e locais públicos com ar refrigerado e raros os produtos dietéticos. Quer dizer: não é um lugar para diabéticos e gordos calorentos. A coisa melhorou um pouco depois daquele verão terrível em que milhares de velhinhos morreram de calor, e hoje quando você pede um adoçante, ou o que eles chamam de "falso açúcar", para o cafezinho num restaurante já não precisa repetir quatro vezes sua estranha vontade, o garçom entende na segunda. De qualquer maneira, refrigeração e açúcar falso, decididamente, ainda não pegaram por aqui.

Luiz Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2012 | 04h22

Os humoristas franceses não estão dando folga ao François Hollande. Não lhe deram nem o período de tolerância tradicionalmente concedido a novos presidentes. Se o Sarkozy tinha cara de escroque o Hollande tem a cara de um professor de matemática que errou de profissão. Sua ingenuidade pode estar só na cara - afinal não foi por falta de matreirice e saber político que ele chegou onde está -, mas é a cara do cara que provoca as maiores gozações. No outro dia apareceu uma foto em que ele saía rapidamente de uma reunião e consultava seu relógio, para dar uma ideia de dinamismo no cargo. Só que o mostrador do relógio estava virado para a câmera e o presidente consultava seu próprio pulso. Comentário de um comediante da TV, diante da foto: "E pensar que esse homem pode apertar um botão e disparar todo o arsenal nuclear francês..." Mas parece haver um consenso que, depois dos anos Sarkozy, um professor de matemática desgarrado no governo é uma boa mudança.

Hollande é, simplificando um pouco, a primeira consequência "de esquerda" da crise europeia. É improvável que os conservadores mantenham o poder nas próximas eleições inglesas mas o primeiro-ministro Cameron não é obrigado a pôr seu programa de austeridade à prova eleitoral num futuro próximo e a reação da "esquerda" inglesa pode demorar. Na Espanha e em Portugal a crise favoreceu a direita e a Itália pós-Berlusconi ainda não sabe para que lado vai. Mas na Grécia, onde a crise é mais evidente, surgiu uma liderança francamente de esquerda, sem aspas, que tem boas chances de vencer as próximas eleições. O diabo é isto: a crise do euro e da união europeia não tem uma saída ideologicamente definível, tanto pode desandar para a direita quanto para a esquerda, e não faltam lideranças de direita com discursos nacionalistas e às vezes xenófobos esperando seu chamado.

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