Vidal Cavalcante/Estadão
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O cão abstrato

A gente nunca sabe o que pode nos acontecer na próxima esquina

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 03h00

Vou levar o meu cão abstrato para passear. E olhar nossa imagem refletida na vitrine de uma loja de calçados. Nela, vamos nos multiplicando e nos subtraindo. Já não estamos mais lá ou em qualquer outro lugar. Acho que ouvi um latido. 

A vida e suas largas avenidas. Multidões que descem as escadarias do Metrô. O motorista de aplicativo que se chamava Caronte cancelou minha corrida. O ônibus que me deixou com o braço estendido para sempre. Vou a pé – com meu cão abstrato.

A arte dos encontros é uma língua morta. Você não mora mais aqui. Se eu não sair do lugar, se eu bancar uma estátua, talvez te veja passar. E te veja com seus cabelos encaracolados de sonhos surrealistas. E te veja carregando essa utopia de beleza para cima e para baixo.

Você ia gostar de me ver agora. Ou melhor, é uma pergunta: Você ia gostar de me ver agora? 

Tudo é igreja, boteco e estacionamento. Um padrão que se repete. Tanto faz a porta que vou bater. O quê? Meu cão abstrato pensou que era um poste. Desculpe, meu senhor. Ele já não enxerga tão bem. Não vai ficar mancha nenhuma. Nunca fica. 

Agora tenho um problema: um homem confundido com um poste. O homem poste quer vingança, ameaça me bater e jura me matar. Que culpa tenho eu se ele é incapaz de perdoar meu cão abstrato com problemas urinários?

Ter um problema é estar vivo. Quem não tem problemas já está morto. Agradeço ao homem poste – que me responde com um soco no olho. Não reclamo. Acho que o olho roxo combinou comigo. Acho que me deu uma aura qualquer, uma marca, uma distinção. Não sou mais como vocês.

Sou um ‘sir’ como Paul McCartney, Mick Jagger e Anthony Hopkins.

Puxo meu cão abstrato. Vem, vem, vamos para casa. A gente nunca sabe o que pode nos acontecer na próxima esquina. Acho que ouvi um latido.

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