Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

O canto e a alma a serviço da emoção

Com formação mais enxuta, Mônica Salmaso grava compositores de renome

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2011 | 00h00

Hoje, aos 40 anos, Mônica Salmaso sabe que quando canta "não invade mais a casa das pessoas, são elas que vão na minha para me verem cantar." Dois anos depois da longa e exaustiva turnê de Noites de Gala, Samba na Rua, resultante do disco em que abordou ao lado da Pau Brasil a obra de Chico Buarque, Mônica vai dedicar o ano de 2011 primordialmente ao novo trabalho, Alma Lírica Brasileira. Na entrevista a seguir, a cantora fala das suas razões na escolha do repertório, da não obrigação de revelar novos compositores e dos momentos em que se sente autora.

Depois de bastante tempo na estrada com Noites de Gala, Samba na Rua, como foi concebido esse novo trabalho?

Esse disco é engraçado, ele se virou sozinho. Não foi pensado, inicialmente, como um disco. Poderia vir a ser, mas o que aconteceu foi que a gente estava em algum momento do final do ciclo do Noites de Gala, Samba na Rua, e aí apareceu um convite normal de fazer um show com uma formação menor, não cabia o quinteto. Essa flexibilidade de poder mudar e diminuir a formação é sempre boa. Aconteceu que eu saía super feliz após os shows com o Teco e com o Nelson. Esse trabalho entrou de um jeito que, quando acabava um show, eu pensava: "É exatamente isso o que eu quero dizer, em vários sentidos."

E como o repertório e o título do disco foram definidos?

A gente já tinha feito Melodia Sentimental com a Osesp, aí pensamos em fazer Lábios que Beijei, que é uma valsa do J. Cascata toda bordada, muito bonita... E o Nelson me apresentou o Samba Erudito, do Vanzolini, e eu pirei na música. Junto já pensei em gravar o Cuitelinho. Na turnê do Afrosambajazz, me encantei com o Carnavalzinho, que já tinho sido feito pela Lisa Ono e pelo Mario Adnet e que foi gravada no disco da Antonia (Adnet). Teve também a Promessa de Violeiro, com a qual tive contato pelo grupo Conversa Ribeira. Tudo tem a ver com essa expressão alma lírica brasileira, que acompanha desde o meu disco Trampolim. Obviamente tem um lirismo, mas também nessa expressão cabe muita coisa, como o humor brasileiro, a fé, o regionalismo, essa forma brasileira de rir da desgraça. Dá a impressão, pelo nome, de que vamos ouvir apenas os "grandes" da música brasileira, mas não é só isso. Eu gosto muito dessa expressão, ela resolve muita coisa pra mim.

Ainda em relação ao repertório, você gravou Trem das Onze e A História de Lily Braun. Por que registrá-las sendo que elas já foram exaustivamente gravadas?

Bom, tem a primeira música que eu acho que conheço que é Trem das Onze. É uma música que ficou estigmatizada como uma música megaesgotada, ela tem esse estigma já faz uns dez anos, e isso é injusto com ela. A História de Lily Braun, por exemplo, é do Grande Circo Místico. Eu tinha acabado de fazer os Afro-Sambas com o Bellinati, o Nelson era amigão dele e diretor da Jazz Sinfônica. Aí ele me convidou para cantar no show que a orquestra ia fazer com o Edu Lobo. Pra mim, isso foi um grande lance, eu ainda estava engatinhando, aquilo ali ainda era muito novo pra mim. Eu estava empenhada em mostrar serviço, e, de repente, apareceu uma coisa que era o símbolo de que eu tinha virado cantora. Uma das músicas que eu cantava era A História de Lily Braun, então tenho um lance com ela e com o Nelson nessa música, por isso a gente resolveu fazer.

Ainda em relação aos temas do disco. Não dá certo temor em gravar canções como Lábios que Beijei e Meu Rádio e Meu Mulato, eternizadas nas vozes de Orlando Silva e Carmen Miranda?

Se já tive algum problema com isso, já perdi, foi quando fui gravar Beatriz por causa daquela gravação do Milton (Nascimento). Pensei: "Essa música é muito linda, não tem culpa que a primeira gravação foi tão histórica." E ela vai ficar fadada a ninguém poder cantar por isso? Se for pensar assim, fica aquela neura de "ah, tem que procurar só músicas inéditas", isso pra mim é um raciocínio que não faz parte, mas que ouço muito. Por que não os novos? Não tem nenhum não em relação aos novos. Mas por que não posso fazer o que tenho vontade? (risos). Aonde está escrito que o cantor tem essa função que é descobrir novos talentos? Isso é coisa de olheiro, que fica na rua descobrindo novos talentos, eu sou cantora. Escolha de repertório é muito particular, é quando eu me sinto mais autora. Ninguém discute nos Estados Unidos por que gravar Cole Porter. É um jeito estranho de não cuidar do Brasil. né?

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