O canto calado

Acervo da família de Taiguara alimenta CD e livro relembra seus embates com a censura

RENATO VIEIRA, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h14

Outubro significava muito para Taiguara. É o mês de seu nascimento e da consolidação da Revolução Russa, com a qual o cantor e compositor se identificava. Era, a seu ver, um símbolo de nascimento e renovação. E é o que deve acontecer este ano com sua obra.

Não à toa, outubro será o mês em que vários projetos envolvendo o artista chegarão às lojas. O álbum Ele Vive terá 11 faixas inéditas, gravadas nos últimos anos de vida de Taiguara, além de registros ao vivo feitos nos anos 1970. O material está em fase de restauração. O livro Os Outubros de Taiguara, da jornalista Janes Rocha, deve sair simultaneamente ao CD, dando conta de sua produção artística e de seus embates com a censura.

Rocha levantou no Arquivo Nacional as músicas censuradas de Taiguara. Entre 1970 e 1974, ele submeteu ao Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP) 140 canções. Destas, 48 foram vetadas. "Não tenho dúvida que Taiguara foi mais censurado que Chico Buarque. Ele foi o principal alvo dos censores e não conseguiu mais trabalhar", afirma a jornalista.

Ela conta que a gravadora Odeon, percebendo os vetos sistemáticos ao repertório de seu contratado, utilizava as músicas de Taiguara como barganha para liberar outras. "Os censores vetavam as do Taiguara, porque iam vetar mesmo, e na negociação, deixavam passar as outras que estavam no bolo que ia para a censura". Ele chegou a usar o próprio sobrenome e o nome da mulher, Gheisa, para que as músicas do álbum Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976) passassem para a censura. Poucos dias depois de chegar às lojas, o álbum foi recolhido.

O crítico e musicólogo Zuza Homem de Mello também acompanhou a fase em que Taiguara passou a ser perseguido, no início dos anos 1970. "É nesse momento que ele deixa de ser o artista romântico, com músicas no limite do brega. Ele não tinha postura política até então", considera Zuza. Para ele, a causa da queda de popularidade de Taiguara é fruto não só da mensagem política de seu cancioneiro, mas do autoexílio a que o artista se submeteu nos anos 1970. "Artista brasileiro que vai embora é esquecido", sentencia.

Nascido no Uruguai em 1945, Taiguara era filho do bandoneonista Ubirajara Silva e da cantora Olga Chalar. Aos quatro anos, veio para o Rio e, em 1960, mudou-se para São Paulo, onde iniciou carreira, participando de programas de TV e shows universitários ao lado de Chico Buarque e Toquinho. Zuza foi espectador de suas primeiras apresentações. "Enquanto Toquinho e Chico eram tímidos, o Taiguara segurava a plateia, cantando pra fora. Fazia dele o palco com seu carisma."

Álbum. O material que será lançado em Ele Vive estava em posse da família. Os registros, feitos nos últimos anos de vida de Taiguara, foram feitos de modo caseiro, com voz e instrumentação básica, e estão sendo retrabalhados para ganhar novos arranjos.

Ricardo Cantaluppi, diretor de operações da gravadora Kuarup, que gere o acervo de Taiguara, conta que a nova roupagem está sendo feita com a consultoria da família. "Não queremos descaracterizar nada. Nossa intenção é fazer com que as faixas fiquem do jeito que ele gostaria." Das quatro faixas ao vivo de Ele Vive, três são sucessos de Taiguara. Hoje (de sua autoria), Modinha (Sérgio Bittencourt) e Helena, Helena, Helena (Alberto Land). Há ainda uma releitura de Outubro (Milton Nascimento e Fernando Brant).

Um documentário também está nos planos da Kuarup. A previsão é de que o filme seja lançado em 2015, quando Taiguara faria 70 anos. Rodolfo Zanke, diretor artístico da gravadora, diz que imagens do artista em festivais e programas de televisão serão compiladas. "Vamos fazer da melhor maneira. É uma história rica e que merece ressurgir com qualidade."

Apesar dos projetos em andamento, o cantor e compositor Lenine Guarani, filho de Taiguara, não alimenta esperanças quanto a um reconhecimento póstumo. "Não acredito que vá passar da página 2. O Brasil vive um momento complicado, o valor que se dá para a música que é nossa de verdade vai até a página 2, literalmente. Acho possível que esse trabalho ajude a obra do meu pai a aparecer aqui ou ali, e matar a saudade de quem gostava muito dele. Talvez circule na mão de uma molecada mais esperta também. Ele ser acessível já é uma vitória."

Outros projetos estão em andamento fora da Kuarup. A Universal Music deve relançar nos próximos meses o álbum Fotografias (1973) e tem planos de editar ainda este ano um DVD com um show de Taiguara na TV Bandeirantes. A jornalista Barbara Bigarelli pretende lançar comercialmente o livro Taiguara, Senhor de Si, concebido como seu trabalho de conclusão de curso.

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