O caminho que leva às mais belas

Compositor Paulo César Pinheiro lança livro em que conta como nasceram alguns de seus clássicos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Quando ligou no Jornal Nacional e viu um grupo de exilados brasileiros dentro de um avião cantando Tô Voltando, sua parceria com Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro chorou, comovido. Era 1979 e os versos "Pode ir armando o coreto/ E preparando aquele feijão preto/ Eu tô voltando" haviam sido compostos não para um hino da anistia, mas como uma celebração da volta de Tapajós para casa, morto de saudade da família e dos amigos, depois de uma longa temporada de shows pelo Brasil.

Compositor de mais de 40 anos de carreira, à qual deu início ainda menino, letrista prestigiado por Tom Jobim, Baden Powell, João Nogueira e muitos outros companheiros de música e de mesas de bar, Pinheiro tem mais de mil músicas gravadas, parte por cantoras-símbolo de uma época - Elis Regina, Clara Nunes, Simone.

Por trás de algumas delas estão histórias curiosas, emocionantes, engraçadas. Ele escolheu 65 das melhores e as reuniu em Histórias das Minhas Canções, lançamento da Leya. Também romancista e poeta, o autor já havia lançado um livro pela editora, Pontal do Pilar (tem ainda doze títulos anteriores).

Pinheiro conta que desde a adolescência, quando começou a compor, ouve: Onde você estava quando compôs tal música? Pensou em quê? A pedido da mulher, a cavaquinista Luciana Rabello, começou a rascunhar algumas histórias, até se dar conta de que dali poderia sair um livro interessante. Estava certo.

A primeira canção selecionada não poderia ser outra: Viagem, feita aos 14 anos, sob reprimenda do pai, com o primeiro parceiro, João de Aquino, vizinho do bairro de São Cristóvão. "Isso não dá camisa a ninguém", dizia o pai, quando o via debruçado sobre a folha de papel rasurada.

Até hoje, Viagem é sua música mais gravada. "É um amuleto, o cartão de visitas da minha profissão, a que me rende mais direito autoral até hoje", conta Pinheiro. Não foi, no entanto, a primeira a ser gravada. Esse posto é de Lapinha, escrita para samba de Baden Powell. A parceria entre o garoto de 16 anos e o violonista e compositor consagrado o projetou e provocou ciúme violento em Vinicius de Moraes, o letrista dileto de Baden, já poeta admirado em todo o País.

Pinheiro conseguiu dobrar a vigilância do pai e caiu no circuito de botecos do Rio na cola de Baden. Vinicius o olhava torto, e só anos depois viria a se tornar seu amigo. "A partir do início da minha parceria com Baden, a dele com Vinicius praticamente acabou. Eu não esperava essa reação dele", lembra Pinheiro, que nunca chegaria a compor com o Poetinha.

Com Tom fez Matita Perê. Eles compartilhavam a admiração por Guimarães Rosa. Tom ouviu Sagarana, de Pinheiro e Aquino, num festival, ficou encantado, e o chamou a sua casa para mostrar-lhe um esboço de canção. Pinheiro escreveu nas lacunas deixadas por Tom - quem ouve não imagina.

Escrito todo à mão, à sua maneira (ele não chega perto dos computadores da mulher e dos filhos, precisa do "contato da mão com o papel", especialmente na hora de compor), não em ordem cronológica, mas conforme ele ia se lembrando das histórias, o livro narra o nascimento de Saudades da Guanabara, dele, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, em que eles cantam o amor pelo Rio, mas também suas mazelas.

Conta a dor em que estava imerso quando fez Um Ser de Luz, para Clara Nunes, sua mulher, que havia morrido poucos meses antes (só aceitou escrevê-la diante da insistência do parceiro João Nogueira, que temia que outros compositores, menores, resolvessem homenageá-la). Fala de Leão do Norte, com Lenine, sucesso na voz de Elba Ramalho, e de O Samba é Meu Dom, com o baterista Wilson Das Neves, que homenageia sambistas de diferentes estirpes.

A melhor história, no entanto, é a referente uma música pouco lembrada, Pesadelo. Era o auge da ditadura e Pinheiro vivia às voltas com a estupidez dos censores. Um dia resolveu radicalizar e escreveu uma letra, para música de Maurício Tapajós, sem metáforas, direta ao ponto: "Você corta um verso/ Eu escrevo outro/ Você me prende vivo/ Eu escapo morto".

O MPB-4 prometeu gravá-la caso a canção passasse pela censura - o que parecia impossível. Solução? Mandá-la com o nome de um artista menos visado. A malandragem deu certo: Pesadelo foi aprovada por ter entrado na pasta de letras do LP de Agnaldo Timóteo na gravadora Odeon, também a sua (os ditos bregas recebiam carimbo de aprovação imediato). A música deixou a clandestinidade e ganhou espaço nos shows do MPB-4. Detalhe: Timóteo nunca soube da história.

Pinheiro já tem material para um volume dois, uma lista de 20 canções que está crescendo. Os parceiros foram morrendo - Tom, Baden, João Nogueira, Mauro Duarte, Tapajós, Raphael Rabello -, mas novos foram chegando, como os filhos dos parceiros antigos, Diogo Nogueira, Alice Caymmi, filha de Danilo, Marcel e Philippe Powell... O mais jovem é Joaquim Carrilho, de 14 anos, filho de Maurício, que musicou um poema seu.

Histórias das Minhas Canções

Paulo César Pinheiro

Leya

256 páginas

R$ 44,90

Fim

TRECHO

"Fomos pro Veloso, hoje Garota de Ipanema, bar da Rua Montenegro, hoje Vinicius de Moraes, onde parávamos. Pela primeira vez eu estava cruzando com o poeta. Baden tirou o violão da capa e o samba tomou conta do ambiente. Cantamos (Lapinha) umas dez vezes seguidas. Todos cantavam juntos e Vinicius quieto. A certa altura, levantou-se como quem vai ao banheiro e desapareceu, sem ter dito uma palavra antes. Fiquei meio decepcionado e todos notaram. Tom tentou contemporizar: "Não liga, não, Paulinho, Vinicius é extremamente ciumento. Não faz por mal." Todavia, o fato me causou irritação. (...) Afinal, era uma diferença de 36 anos entre um e outro."

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