O camaleão Waldomiro de Deus

Há 15 anos Waldomiro de Deus, um dos mais primorosos pintores naifs, peregrina com seus pincéis, paletas, tintas e telas entre as suas moradas em Osasco, na Grande São Paulo, e no cerrado de Goiânia. No ano passado, decidiu que precisava de um canto apropriado, uma oficina para pintar, principalmente porque começava a se firmar como pintor na família - Lourdes de Deus e Ammom, mulher e filho. Difícil, contou o artista, era decidir onde construir. Mas, para comemorar 40 anos de carreira, Waldomiro se deu ao desfrute de inaugurar quase simultaneamente dois ateliês. Em dezembro, ele abre a sede paulista e logo depois, em janeiro, a goiana, em uma casa no bairro do Jardim Presidente, próximo de sua residência. "A idéia surgiu por que Lourde se sente melhor em Goiânia e eu como adoro os dois lugares não fiz por menos", contou o pintor em uma entrevista à Agência Estado. Os endereços, entanto, não serão divulgados por enquanto. Os interessados em fazer uma visita poderão ligar para (62) 289-1041. A inauguração já não era sem tempo. Seu último e movimentado ateliê na década de 70, em uma mansão, na cidade paulista, era disputado por artistas, intelectuais e amigos que participavam de discussões, geralmente aos domingos, para acompanhar as vanguardas. Como os gastos com a casa começaram a crescer, o pintor teve de vendê-la. Desde então, Waldomiro, que vive tão somente da pintura naif, acomodava seus apetrechos em locais onde tivesse uma boa luz e uma brisa, geralmente no quarto de suas casas ou no quintal. ReproduçãoObra de um dos maiores representantes da arte naifAnsioso com as inaugurações, Waldomiro se diz satisfeito com as conquistas e com as homenagens que vêm recebendo nos últimos anos. Na conversa, o artista rememora suas "oito ou dez fases mais ou menos", seus escândalos, mas sem esquecer das crítica ao desleixo da sociedade com os necessitados. "Depois da Mostra do Redescobrimento: Brasil+500, a exposição no Museu Internacional Naif e ainda a Bienal Nacional em Piracicaba, acho que não tenho do que reclamar". Uma outra novidade contada com entusiasmo é a tradução para o francês de sua biografia, Pincéis de Deus, que deverá ser lançada junto com uma exposição de quadros inéditos, em Paris, mas só no ano que vem. A obra, escrita por Oscar D´Ambrosio, descreve em 176 páginas seus causos. Aos 12 anos, ele fugiu da pequena Itajibá, no sul da Bahia, e começou a percorrer o Brasil. As horas de conversa com o seu biógrafo, renderam ao pintor o apelido de camaleão."Ele está sempre mudando. Porém, enquanto o animal muda para ser visto no ambiente em que se encontra, fugindo dos predadores, ele funciona ao inverso. Isso significa que muda antes do meio que o cerca. Coloca-se, portanto, na vanguarda, esperando que os que estão ao seu redor o sigam", afirmou D´Ambrosio. ReproduçãoUm desejo antigo do pintor é fazer mais exposições em sua terra natalPor isso, só ele poderia ter desfilado de minissaia. "Não sabia o que era. Experimentei e vi que era para mulher. A dona da loja me desafiou. Disse que pagava se eu saísse com ela no meio da rua. Como estava duro, sem um tostão, não pensei duas vezes". "O problema é que me xingaram de tudo quanto era nome".Mas tarde, o fato inspirou o quadro Nossa Senhora com Minissaia, hoje, segundo ele, nas mãos de algum colecionador. A obra, polêmica até hoje, levou-o a constrangimentos com vários membros da Igreja Católica e integrantes da seita TFP - Tradição Família e Propriedade. "Cheguei a ser sequestrado por um grupo de jovens armados da seita", contou. "Só me safei por que consegui convencê-los que podia ser rebelde, mas nunca, como eles, assustaria alguém daquele jeito. Acho que por isso me soltaram sem um arranhão no meio de um matagal". Waldomiro é uma referência obrigatória do gênero, sendo citado no capítulo Six Popular Masters do livro Genius in The Backlands: Popular Artists of Brazil, lançado em 1976, do conceituado crítico Selden Rodman".Polêmicas à parte, Waldomiro segue pintando e expondo pelas principais cidades do Brasil planetas, peixes, flores, folclore e as críticas. São cerca de 3 mil obras, a maioria, espalhadas entre colecionadores ou em acervos de museus de todo o mundo. Tudo é motivo para ele exibir uma técnica que aprendeu sozinho ou com amigos como o físico e crítico de arte Mário Schemberg e o Marquês Terry Della Stuffa, pessoa que o tirou da rua. Nos seus planos estão o sonho de voltar a expor no Museu de Arte de São Paulo, que não realiza uma exposição de naif há tempos. E um desejo antigo: sutilmente ele se queixa de quase nunca receber convites para expor suas obras em seu Estado natal. Quem quiser conhecer mais sobre o pintor, pode visitar seu site (http://www.waldomirodedeus.com.br/historia.html)

Agencia Estado,

11 de novembro de 2000 | 16h59

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