O caldeirão dos ritmos de Olinda

Orquestra Contemporânea inova sem perder a tradição

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

A efervescente cena musical pernambucana, que desde os idos de Chico Science carece de uma justa exposição nos palcos internacionais, parece, enfim, ter encontrado um representante para fazer a diplomacia do pós-mangue beat. Trata-se da Orquestra Contemporânea de Olinda, que há dois anos contagia o público de festivais brasileiros com uma empolgante mescla de ritmos tradicionais e vertentes da MPB contemporânea.

Sob a luz de boas críticas do New York Times, o grupo, que se apresenta hoje no Auditório Ibirapuera e depois segue para o Rio, fez apresentações lotadas no Kennedy Center de Washington e no Lincoln Center de Nova York, onde conquistou o público com o repertório do disco homônimo de 2008 e arranjos de clássicos como O Pato - além de fazer uma fanfarra no fim do show e levar a música até o lado de fora do auditório.

A receita da orquestra é do percussionista Gilson Lúcio do Amaral Filho, o Gilu, que já gravou com Naná Vasconcelos, Otto e Pupilo. A ideia, segundo ele, era conseguir um equilíbrio entre as linguagens musicais de Pernambuco e as sonoridades do rock contemporâneo. "Eu quis juntar o mais novo com o mais antigo", disse em entrevista ao Estado. "Só que não é como o público está acostumado. É um caldeirão de ritmos difíceis de distinguir. Se você pegar o disco, vai escutar um samba que daqui a pouco vira um rock-n"-roll e dali vira outra coisa."

Para realizar essa mistura, Gilu montou um time de músicos que traz estilos e experiências das mais variadas. O resultado é raro: uma banda que faz o público dançar e ao mesmo tempo retém uma identidade sonora única.

Os arranjos são de autoria do maestro Ivan do Espírito Santo, regente da banda da Aeronáutica do Recife durante o dia e professor da escola de música Grêmio Recreativo Henrique Dias à noite. A escola é uma espécie de El Sistema pernambucano. Desde 1954, é responsável pela formação de grande parte dos integrantes das orquestras de frevo de Olinda e, como não poderia ser diferente, providenciou os metais do grupo.

Para os vocais e a rabeca, Gilu chamou Maciel Salú, filho de Mestre Salustiano, o exímio rabequeiro responsável pela preservação do maracatu rural, ciranda e cavalo-marinho, entre outras manifestações culturais pernambucanas.

Vanguarda. A voz calejada de Maciel, que mistura sua rabeca com guitarras distorcidas, contrapõe-se ao vocal mais melodioso de Tiné, vocalista e letrista da orquestra. O grupo é acompanhado pelas cordas de Juliano Holanda e a bateria de Raphael Beltrão, ambos da vanguarda musical pernambucana, o que cria uma potente mistura de sons que vai do afro beat ao ska, sem perder o sabor esfuziante das orquestras de frevo de Olinda. É uma combinação extremamente acessível ao público internacional.

Mas se o prestígio veio dos palcos de Nova York, o fascínio ficou para New Orleans. "Nós não tocamos em New Orleans. Tocamos em Pernambuco", conta o maestro Ivan. "É uma cidade que tem mangue, assim como Recife. A riqueza cultural de lá é muito parecida com a de nosso Estado." Para Ivan, o intercâmbio musical pode agora transformar a música pernambucana em bem de exportação e dar voz a outros grandes grupos, como a Orquestra Spok Frevo e a tradicional Orquestra Popular do Recife. Seria de benefício a todos.

CONHEÇA ALGUNS DOS MÚSICOS

Maciel Salú

Rabequeiro filho do legendário Mestre Salustiano. Tem o pé nas raízes da cultura pernambucana, mas seu trabalho procura incorporar a rabeca em formações de rock e MPB contemporânea.

Gilu

Percussionista e idealizador da sonoridade da orquestra. Colaborou com Otto e Naná Vasconcelos e participou de ótimas bandas pernambucanas, como a Academia da Berlinda e a Bonsucesso Samba Club.

Ivan do Espírito Santo

Maestro s saxofonista responsável pelos arranjos da orquestra. Toca na Orquestra Popular do Recife sob a batuta do grande maestro Ademir Araújo, figura importantíssima na cena das orquestras pernambucanas.

Tiné

Cantor e letrista do grupo. Seu disco-solo, Segura o Cordão, de 2004, é uma excelente mescla de ritmos pernambucanos com arranjos modernos. Colaborou com Maciel Salú na ótima banda Terno do Terreiro.

AUDITÓRIO IBIRAPUERA

Parque do Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, tel. 3629-1014. Hoje, 21 h. R$ 30

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