O caipira improvável e feliz

Com Hoje Tem Mazzaropi, Mario Viana homenageia o comediante que levou para o cinema a figura do Jeca Tatu

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

Quando Mazzaropi (1912-1981) lotou um cinema do Brás com Um Caipira em Bariloche, o futuro dramaturgo Mario Viana tinha 13 anos. A comédia é de 1973, ano em que o intérprete máximo do sertanejo paulista já tinha uma carreira cinematográfica de duas décadas, desde ao estourar nas bilheterias com Sai da Frente e Nadando em Dinheiro (1952). Ao morrer, em 1981, deixou dezenas de filmes rapidamente esquecidos até ter sua obra reeditada em vídeo. Mario Viana se deu conta de que devemos algo a esse filho de imigrantes italianos e portugueses, e escreveu Hoje Tem Mazzaropi, que vale por sua graça e pela tentativa de reviver um jeito popular de representação.

É verdade que Mazzaropi gerou alguma resistência quando se viu nele a caricatura injusta do lavrador iletrado. Mas ele, homem de circo, não era mesmo intelectual e só retratou humoristicamente sua experiência rural no Vale do Paraíba, os parentes e vizinhos de universo anedótico mostrados antes nos textos e casos radiofônicos de Cornélio Pires, das duplas Jararaca e Ratinho e Alvarenga e Ranchinho.

Não lhe era estranha, porém, a literatura de Valdomiro Silveira e Monteiro Lobato. Mazzaropi levou o denominado Jeca Tatu às telas, ao lado de tipos rústicos criados em outros lugares pelo mexicano Cantinflas, o italiano Totó e o francês Fernandel, todos populares até o começo dos anos 60. O fim da sua carreira coincide com a perda do romantismo sobre o campo ao se agravarem os conflitos fundiários e a existência cruel dos chamados "boias-fria".

Em todo caso, Mazzaropi divertiu multidões e agora o espetáculo simpático de Hugo Coelho traz aos olhares urbanos um primo fictício dele, que é quase a sua cara e ingenuidade espertalhona. O referido parente entra no enredo do matuto que se tentará vender como outro Mazzaropi, desta vez com uma filha boazinha, outra ambiciosa, um namorado meio confuso e mais alguns agregados.

A comicidade nasce da ida do improvisado artista para a capital e das consequências da viagem disparatada. Mario Viana, que tem obra de sucesso, procura estar próximo do Mazzaropi real, que se mantinham numa linearidade movida à espontaneidade e um leque de bordões, trejeitos e pequenas façanhas. O entrecho atual sofre com a simplificação e, no meio da peça, as situações rodam um pouco em círculo (e sem os closes de cinema que captavam o melhor de Mazzaropi).

Há momentos bem divertidos e outros um pouco gritados (agudos femininos são incômodos em teatro). No fim, a comédia vai adiante com um elenco homogêneo capitaneado por Júlio Lima, que leva um jeito "mazzaropiano". O final feliz é coerente com a imagem idealizada do sertão. Viana não quis contrariar a lenda porque o intento é só um clima de circo. Sociologia não cabe aqui, mas o dramaturgo tem engenhosidade e fôlego de escrita, se quiser retomar o assunto. Que, aliás, é campo para especulações.

Haverá ainda na capital espaço para o teatro campestre, interiorano ou de setores culturais específicos? São Paulo em tempos passados manteve um sólido movimento artístico da comunidade italiana, tema de inúmeras análises, e não só ela. Acaba de sair o estudo O Teatro Ídiche em São Paulo, de Berta Waldman (Editora Annablume). A crescente integração dos imigrantes e migrantes à sociedade local seria o motivo da diluição dessas expressões comunitárias. O interior e sua maneira de ser passaram por enormes alterações (telecomunicação, asfalto, etc.), a agroindústria substituiu o caipira por uma espécie de lumpesinato rural, enquanto aumenta o filão da música sertanejo-romântica.

Nesse panorama de mudanças boas e más, o comediante velho de guerra encontrou aliados em Mario Viana, Hugo Coelho e elenco: Júlio Lima, Beto Galdino, Dani Mustafci, Iara Jamra e Maria Carolina Dresller. Com o chapéu de palha desfiado, botinas e calças de pular brejo, o pequeno herói matreiro refugia-se no palco e brada que hoje tem Mazzaropi.

Clima de circo. Júlio e Iara vivem momentos divertidos e, às vezes, gritados

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