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O caco e o fônico diante do mar

A pior proposta para substituir o elegante termo chauffeur nunca “pegou”: cinesíforo!

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 03h00

Todas as línguas possuem sua melodia específica. As germânicas têm palavras que soam como canhões em um espocar denso e quase afrontoso. As latinas funcionam como metralhadoras com balas de vogais a cada gatilho consonantal. A consoante é um obstáculo para quem nasceu falando as línguas derivadas de Roma. Gostamos de colocar o som livre e sem impedimentos a cada muralha. O erro é conhecido por uma das mais medonhas palavras da língua portuguesa: suarabácti. Meter vogais como quem recheia pastéis, nosso vício das margens do Rio Tibre até o Tietê. Exemplos de suarabácti? “Adevogado”, “pineu”, “o incrível Hulki”; “piseudo” e, passando pela Avenida Paulista, o “Méqui 1000”, consagrando nossa indefectível inclinação pelo grupo A, E, I, O, U. A origem da palavra é sânscrita. O fenômeno é mais amplo, a tal da epêntese que eu já citei em crônica. Ocorre dentro das nossas raízes: a blatta latina vira a nossa barata, com vogal e nojo indissociáveis.

Palavras são sempre ricas; nem todas belas. A mais horrorosa da língua de Camões é fronha. Franzimos o cenho ao pronunciar. A careta é inevitável. Pronunciar fronha é feio; mordê-la é inconfessável.

Já houve nacionalismo e sugeriu-se banir o termo de avós britânicos: futebol. Nunca conseguimos usar o ludopédio mais honroso com nossa tradição clássica. É palavra natimorta. Poderia ser condutor, piloto em alguns sentidos, auriga como metáfora poética e até o terrível termo automedonte. Bem, a pior proposta para substituir o elegante chauffeur nunca “pegou”: cinesíforo!

Usando de um vocábulo pouco comum em textos sóbrios de jornal respeitável, cito outra palavra duplamente bela: pelo som e pela imagem. Na verdade, pudico que sou, deixo que autoridade maior a enuncie. Assim, se o senhor e a senhora supuserem que o vocábulo enxovalha sua leitura, queixe-se com Carlos Drummond de Andrade: “A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. (...) A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, rebunda”. Viram? Uma linda palavra. Mais curioso. Ao pesquisar a etimologia do termo, encontra-se a língua que a deu a nós, o belíssimo Quimbundo. É forte e bela. Você pode usar para sua esposa ou seu marido, em louvor ao termo descrito ou em homenagem ao que a área foi um dia. As nádegas são de uma frieza indevassável, quase termo médico. Glúteos faz a língua sofrer para soltar o som. O galicismo metafórico “derrière” parece coisa de casa de tolerância da Belle Époque. Trata-se da palavra eufônica por excelência. Sua menção pode ser alvo de condenação moral, mas traz a todo homem e toda mulher as mais sinuosas recordações. Os gregos chamavam a imagem de Vênus (quando bela por tal aspecto) de calipígia. Sim, um termo clássico e técnico que mostra a habilidade do cinzel do escultor. Não tem a alegria que Drummond identificou no poema. Vemos a deusa exibindo carnes no Museu Arqueológico de Nápoles. Também podemos identificar, no mesmo museu, atributo similar na estátua do Hércules Farnésio. Mas... calipígio é cacofônico, parece aula de grego ou latim. O legal está no poeta de Itabira: “A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente”. É um termo forte e belíssimo, evocador, cheio de luz e de inspiração.

Falando de frente ou de costas, sussurrando junto à fronha ou proferindo lives, as palavras devem ser respeitadas na pronúncia clara e com entonações. As consoantes explosivas como p e b devem soar bem. O f (e seu som fricativo) pode diminuir a temperatura da fala. O uso original do ão, algo tão específico da nossa língua, reaquece o ritmo e distingue se você tem como língua materna o Português. Amo o som da minha língua e a imagino desejável, sedutora, calipígia. Recito versos em voz alta e meço a sonoridade. Uma vez (isso poderá ser usado em uma audiência para minha interdição judicial no futuro) recitei Camões em praia deserta utilizando a técnica do orador Demóstenes: colocando obstáculos na boca e retirando, um a um, para aumentar a clareza. Não quis arriscar seixos, utilizei pastilhas de garganta que levava. Falar ao mar, ouvir-se, enunciar, marcar o ritmo. Dou detalhes para que não reste ao probo juiz nenhuma alternativa ao manicômio judiciário.

Os cacos da minha língua são parte da arquitetura da minha alma. Camões disse que morreria em e com Portugal. Vendo tanta gente falando com pouco cuidado nas redes sociais, sinto o mesmo comigo e com a Língua Portuguesa. Morreremos os dois, felizes, recitando Drummond na praia deserta do amor retórico. A “flor do olvido” (outro termo do poeta) é sutil. É preciso ter esperança, uma linda palavra. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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