O caçador de formas puras

O húngaro Moholy-Nagy ganha ampla mostra na 13ª edição do PhotoEspaña

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2010 | 00h00

O húngaro László Moholy-Nagy (1895-1946) foi um homem da modernidade, voltado à criação interdisciplinar. Pintor, escultor, designer, professor - em 1923, adere à Bauhaus alemã; depois, a partir de 1937, com a 2.ª Guerra, se liga ao Instituto de Design de Chicago, nos EUA, do qual foi um fundador - dizia que "a arte é a mais complexa, vitalizadora e socializadora das ações humanas, portanto, de necessidade biológica". Como parte de sua missão criativo-educativa e de busca do novo, no contexto das vanguardas modernas, Moholy-Nagy incorporou os experimentos com a fotografia, "a arte da luz", como definiu em teoria de 1925.    

     

A arte da luz. Projetos sobre as novas formas do olhar

Ele se transformou, assim, num pioneiro do tratamento do gênero fotográfico como meio para "aguçar os sentidos e a percepção humana", diz a historiadora e crítica espanhola Oliva María Rubio. É ela a curadora da mostra antológica de László Moholy-Nagy em cartaz até 29 de agosto no Círculo de Belas Artes de Madri como parte da programação do PhotoEspaña 2010, festival dedicado à fotografia.

 

Grande destaque desta 13.ª edição do evento espanhol, a exposição, de caráter histórico e monográfico, não se encerra nas experiências fotográficas do artista apresentando, ainda, oito filmes, pinturas, fotomontagens e projetos de design criados pelo vanguardista desde 1922 (ano do embrião dos pensamentos de seu emblemático ensaio Pintura Fotografia Cinema, sobre a "estética da luz") até sua morte. É uma mostra de fôlego, com mais de 200 obras que pertencem a vários acervos (o que a torna ainda mais rara).

Investigação. O que tem de especial, além das teorias, as obras fotográficas de Moholy-Nagy? Ele nunca foi professor de fotografia, nem mesmo saía ao mundo com sua câmera - suas imagens não são documentos, mas projetos sobre novas formas do olhar (curioso como esta edição do PhotoEspaña tem forte sentido de aproximação do gênero fotográfico com as artes visuais).

"O que diferencia Moholy-Nagy é que a sua fotografia não era voltada à ideia da reprodutibilidade, colocada por Walter Benjamin, mas à da produtividade", afirma Oliva Rúbio, que já foi curadora do festival entre 2001-2003.

Pontos de vistas diferentes pelo enquadramento; cortes abruptos nas cenas, revelando em primeiro plano pessoas e lugares por fragmentos; exploração de diagonais; e tomadas fotográficas de cima para baixo revelam já nas experiências iniciais do artista (as que são, principalmente, do fim da década de 20 e anos 30, belas e feitas em viagens por diversas cidades europeias) uma construção da imagem.

Fica evidente nessa operação, tanto artística quanto de busca de técnicas, a marca do interesse de Moholy-Nagy pelas formas puras - afinal, sua influência era o construtivismo -, o que abriu o espaço para a abstração e para a arte cinética. "Ele queria que o espectador se deslocasse, se transformasse em ativo", completa a curadora. Basicamente construída em preto e branco, é uma experimentação pulsante a realizada por Moholy-Nagy.

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