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O Buñuel que seduziu Lacan

Psiquiatra adorava debater com seus alunos o cult O Alucinado, que o cineasta fez no México

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2010 | 00h00

Embora o próprio Luis Buñuel considerasse El, O Alucinado um de seus filmes favoritos, a crítica, inicialmente, não compartilhava essa opinião. Até um buñueliano de carteirinha, como o francês André Bazin, falhou ao analisar O Alucinado. Bazin escreveu uma crítica demolidora, lamentando que o apuro técnico do diretor fosse colocado a serviço das convenções da pior literatura burguesa. Bazin errou feio sobre O Alucinado, mas se deu conta disso e teve tempo de voltar mais duas vezes ao assunto, reavaliando o filme antes de morrer, em 1958. O curioso é que uma admiradora ardente de O Alucinado, a crítica norte-americana Pauline Kael, vai na contramão de Bazin.

Ela diz que, com exceção das cenas anticlericais, que são realmente brilhantes, o acabamento de O Alucinado é bastante precário e até deixa a desejar, mas essa "imperfeição" soma à aura do filme e aumenta sua potência. É o que você poderá confirmar agora, graças à 2001 Vídeo, que distribui o cult de Buñuel em DVD.

Vale ressaltar que a produção mexicana de Luis Buñuel, assim como a hollywoodiana de Fritz Lang, durante muito tempo foi mal avaliada pelos críticos. Claro, o grande diretor, exilado da Europa, aceitou muitas obras de encomenda, que fazia a toque de caixa. Ele próprio relata em seu livro de memórias, Meu Último Suspiro - ditado ao roteirista Jean-Claude Carrière -, que a média da duração da rodagem de seus filmes mexicanos era de 18 dias e que muitas vezes foi impedido de participar da montagem.

Vários desses filmes eram produções tão pobres que Buñuel, voluntariamente, acabava por desistir de cenas ou ideias que eram essenciais para a construção dramática. Nem por isso a obra mexicana de Buñuel tem de ser negligenciada. Foi lá que ele fez alguns de seus maiores filmes. O Alucinado, de 1953, é um deles.

Quem percebeu isso desde a primeira hora foi Jacques Lacan. Formado em medicina, neurologia, ele chegou à psicanálise pela via do surrealismo. Buñuel foi sempre um de seus objetos preferidos de análise com estudantes. Não apenas Buñuel, diga-se de passagem. Lacan também adorava o rei do melodrama, Douglas Sirk. Mas da produção de Buñuel, era O Alucinado que ele gostava de exibir, e debater.

O filme se inscreve na vertente da análise do comportamento humano, como havia sido antes El Bruto e seria depois A Bela da Tarde. Buñuel inspirou-se no relato de uma autora espanhola, Mercedes Pinto, que contou, em primeira pessoa, sua relação com o marido paranoico. El, Ele, O Alucinado, é Francisco, o protagonista masculino - mas a história é contada por Glória, a mulher. O filme começa numa Quinta-Feira Santa, quando o casto e virgem Francisco de alguma forma se excita ao ver o padre lavar e beijar os pés dos fiéis, como fez o Cristo.

Ele elege o pé de uma mulher, Glória, como seu favorito. Fica obcecado a ponto de separar Glória do namorado e se casar com ela. Começa um pesadelo para os dois. A lua de mel é um desastre. Um dos temas de O Alucinado é a obsessão do macho latino pela virgindade da mulher. Incapaz de refrear seu ciúme e incerto sobre a (in)fidelidade da mulher, Francisco tem uma cena decisiva. Munido de fios de algodão, cordas, tesouras, liça, furador e cutelo, Francisco se aproxima da cama da mulher, quando ela dorme, disposto a costurar todos os seus orifícios. Glória vai se aconselhar com o padre. Francisco, sentindo-se alvo de chacota na missa, tenta estrangular o religioso. Buñuel, Lacan e Kael estavam certos - pela linguagem e pelos temas, pela complexidade de ambos, é um de seus maiores filmes.

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