O BRILHO DE SHORTER

Músico volta ao Blue Note após 43 anos com um disco já histórico

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2013 | 02h06

"Você tem de se expor mais" - essas foram as derradeiras palavras do trompetista Miles Davis para o ex-integrante de seu quinteto, o saxofonista Wayne Shorter, que fora cumprimentá-lo no camarim, logo depois de um show no Hollywood Bowl de Los Angeles, em 25 de agosto de 1991. Sabe-se que Miles detestava conversar sobre música, principalmente com seus músicos. Shorter espantou-se com o papo sobre música e a dica final. Ele fora figura-chave de seu quinteto de ouro dos anos 60/70, primeiro acústico, depois mais pop. Em seus 58 anos, tímido por natureza, ele demorou uma década para seguir o conselho de seu guru, que morreu poucas semanas depois do encontro.

Na verdade, aquela foi uma década perdida. E num momento em que ele tinha tudo para decolar como líder, retomando um itinerário iluminado dos tempos em que gravou para a Blue Note. Afundou numa mesmice, sem rumo, chafurdando na nostalgia de uma história brilhante no jazz moderno: firmou-se nos anos 50 como integrante dos famosos Jazz Messengers do baterista Art Blakey; em seguida, conquistou luz própria ao lado de Davis no mítico quinteto; e, sobretudo entre os anos 70 e 80, por 14 anos, foi uma das estrelas do mais qualificado grupo de jazz-rock daquelas décadas, o Weather Report de Joe Zawinul.

O renascimento artístico aconteceu exatamente dez anos depois das palavras de Miles, quando Shorter montou um novo quarteto, cheio de juventude. Aos 68 anos, cercou-se de músicos notáveis, como o pianista panamenho Danilo Pérez, de 36; o contrabaixista John Patitucci, de 42; e o baterista Brian Blade, caçula do grupo, então com 31 anos. O primeiro CD foi gravado ao vivo, Footprints Live, naquele mesmo 2001, para a Verve. Ele retomou seu status de músico criativo, que sempre olhou para a frente, sem se sentar nostalgicamente em êxitos passados. Em 2004 publicou-se sua biografia, e ela se intitulou, claro, Footprints. Outros discos foram lançados, em 2005 (Alegria) e em 2008 (Footprints Live). Nos últimos cinco anos, nenhuma gravação, mas muitos shows, turnês, uma atividade intensa.

Depois de ter se enamorado, em décadas anteriores, da música brasileira e especialmente por Milton Nascimento (quem não se lembra de Native Dancer?), Shorter virou seu teodolito para composições mais extensas, formas mais ambiciosas. Quem leu sua biografia sabe que o saxofonista adora xeretar nos esboços manuscritos das sinfonias de Beethoven, para sacar seu processo criativo. Aproximou-se do quinteto de sopros Imani Winds, que esteve no Festival de Inverno de Campos do Jordão há poucos anos. Escreveu obras para o grupo.

E agora faz de Pegasus, uma obra de 23 minutos, o núcleo central do recém-lançado CD With Out a Net, ou sem rede. O disco registra, depois de 43 anos, sua volta ao selo Blue Note, com o qual surgiu em 1959. Como um trapezista, aventura-se pelo reino erudito escrevendo para um noneto que integra seu quarteto com o Imani. Nesse, formado em 1997, quatro mulheres contracenam com um homem: o trompista Jeff Scott, a flautista Valerie Coleman, a oboísta Toyin Spellman Diaz, a clarinetista Mariam Adam e a fagotista Monica Ellis.

Erudito pero non tropo, claro. Este tipo de combinação - partes escritas para o quinteto de sopros, improvisos para o seu quarteto - costuma dar costuras mal alinhavadas. Recorde-se o malogrado concerto para dois violões e orquestra de Paulo Belinatti de 2011 na Sala São Paulo. Ou seja, o cavalo alado do título fica com os pés no chão numa escrita simples para quinteto de sopros; e só alça voo quando o quarteto de jazz assume sozinho o leme do improviso.

Foi concebido pela Blue Note para ser o núcleo do CD. Mas se reduz a um longo penduricalho num disco excepcional, superlativo nas demais oito faixas. Aos 80 anos, que completa dia 26 de agosto deste ano, Shorter está na ponta dos cascos. Esqueça o saxofonista de Miles ou do Weather Report e até o parceiro de Milton. É jazz muito mais radical. Orbits, por exemplo, seria uma faixa nostálgica, porque relembra um disco de Davis do qual ele participou em 1966, Miles Smiles. Mas Pérez desconstrói o tema e o coloca na mão esquerda, faz dele um ostinato; e o tenor de Shorter entra afirmativo, mas também espicaça o tema conhecido. Plaza Real, do CD Procession, do Weather Report, também não cai na armadilha nostálgica.

A maior surpresa - e para mim a gema rara da gravação - é Flying down to Rio, canção-título do filme de 1933 assinada por Vincent Youmans, que marcou a primeira aparição da dupla imortal Ginger Rogers & Fred Astaire na telona. Shorter é um cinéfilo fanático. São 12 minutos de surpresas e encantamentos: começa com os acordes ritmados na mão esquerda de Pérez dando o pulso e o assobio - sim senhor, assobio - de Shorter, que depois arrebenta no sax soprano. Não esperem uma leitura quadradinha. Solos maravilhosos, mas não redondos. Astaire, um apaixonado pelo jazz, certamente adoraria.

A cereja no bolo de Without a Net são os seis temas originais que Shorter compôs para o quarteto. Aqui, sim, seu gênio brilha como nunca. Confira Zero Gravity to the 10th Power, de novo iniciando com seu assobio, que dá lugar a um solo notável de Patitucci; ou então a espantosamente radical Myrrh, três minutos de free controlado, a partir de cacos de notas em que o sax soprano de Shorter explora a região mais aguda do instrumento, com direito a harmônicos, sobre quase-clusters do piano.

Observação final: todas as performances foram gravadas em shows da temporada europeia do quarteto em 2011, com exceção de Pegasus, captada em apresentação no Walt Disney Hall, em Los Angeles.

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